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Oficinas ensinam pesquisadores a comunicar ciência para o público
Oficinas de divulgação científica no Equador formam pesquisadores em redes sociais, apresentações e gestão de privilégios
Ao todo, 12 pesquisadores das áreas de saúde pública, planejamento urbano, educação e comunicação participaram da iniciativa no Equador | Imagem: Unsplash
Desenvolver habilidades de comunicação científica ainda é um desafio para pesquisadores. São raros os cursos voltados à prática da divulgação, sobretudo na América Latina. Como resultado, muitos cientistas têm dificuldade para criar iniciativas que envolvam o público em suas pesquisas e atender as demandas das agências de fomento.
Para enfrentar esse problema, um grupo de pesquisadores do Equador e dos Estados Unidos organizou oficinas de comunicação científica para ajudar acadêmicos a desenvolver habilidades de autorreflexão, preparar apresentações para públicos não especializados e produzir conteúdo para redes sociais. Os resultados foram publicados em setembro de 2025 no Journal of Science Communication (JCOM).
Ao todo, 12 pesquisadores das áreas de saúde pública, planejamento urbano, educação e comunicação participaram da iniciativa. O desafio comum a todos era encontrar formas de melhorar o desenho de espaços públicos na cidade andina de Cuenca, no Equador, a partir da análise de hábitos de atividade física de adolescentes de 12 a 17 anos em parques e áreas públicas da região. As oficinas adotaram a metodologia de aprendizagem pela ação, adaptada ao ambiente de trabalho das equipes.
Formato das oficinas
Dois instrutores conduziram os encontros, oferecendo recursos e propondo atividades alinhadas a desafios concretos do cotidiano dos participantes, que tinham de aplicar na prática os conhecimentos e habilidades desenvolvidos ao longo da formação.
As oficinas ocorreram em formato híbrido, com sessões presenciais e online, para estimular a aprendizagem ativa e garantir flexibilidade. Cada encontro, com quatro horas de duração, combinou exposições teóricas e atividades orientadas, previamente elaboradas por um dos coordenadores da iniciativa.
A primeira oficina ocorreu ainda na fase de pré-planejamento do projeto, antes do início do recrutamento do público-alvo. O objetivo foi capacitar os pesquisadores a construírem relações mais éticas com os participantes e demais atores envolvidos.
Uma das atividades buscou fortalecer o vínculo entre os pesquisadores e estimular a consciência sobre diferentes camadas de privilégios.
Os instrutores os fizeram refletir sobre seus contextos sociais, culturais e pessoais, de modo a desenvolver estratégias de gestão de privilégios que favorecessem relações mais éticas e equitativas em colaborações com colegas e com o público.
A segunda oficina treinou os pesquisadores em técnicas de apresentação e produção de conteúdo para as redes sociais, com foco em formatos mais atraentes para públicos amplos. Foram apresentadas estratégias utilizadas em ambientes empresariais e de empreendedorismo para apresentar ideias de forma persuasiva, com apoio de técnicas narrativas.
Os participantes criaram uma iniciativa de comunicação científica combinando redes sociais e oficinas para divulgar os resultados do estudo e promover parques mais seguros em Cuenca, em parceria com a comunidade, organizações de base e o poder público.
Resultados e avaliação
Os resultados indicam que a iniciativa foi bem recebida. Ao final das oficinas, nove dos 12 participantes avaliaram ter alcançado domínio intermediário das habilidades trabalhadas, e 97% consideraram as atividades úteis para desenvolver competências em divulgação científica.
O treinamento em redes sociais foi apontado como o mais proveitoso por 11 dos 12 pesquisadores, enquanto oito classificaram as técnicas de apresentação e produção de conteúdo como extremamente úteis. O exercício de autorreflexão antes do contato com os adolescentes também ampliou a consciência dos participantes sobre seus privilégios e formas de administrá-los.
Ao fim, os pesquisadores não só delinearam estratégias para apoiar os jovens e a comunidade de Cuenca, em parceria com organizações e autoridades locais. Eles também transformaram os achados do estudo em conteúdo para as redes sociais, destacando que parte da população evita parques públicos por questões de segurança.
As oficinas abriram espaço para que os participantes desenvolvessem iniciativas de comunicação com os grupos pesquisados e atores comunitários, além de firmar novas parcerias.
A conclusão é de que fortalecer essas habilidades — sobretudo entre pesquisadores em início de carreira — pode ampliar o engajamento público e tornar mais eficazes as ações de comunicação científica, especialmente quando os pesquisadores incorporam o uso estratégico das redes sociais.
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