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“A ciência é um programa de Estado, não de governo”, diz cientista entre os 107 brasileiros mais influentes do mundo

De vacinas às grandes epidemias, Maurício Nogueira levou descobertas do laboratório às políticas públicas e está entre os 107 cientistas brasileiros mais influentes do mundo

Foto do virologista Maurício Lacerda Nogueira em seu laboratório na Famerp. Ele veste jaleco branco, está de braços cruzados e olha diretamente para a câmera. Ao fundo, dois pesquisadores trabalham com equipamentos de laboratório. Maurício Lacerda Nogueira, virologista da Famerp, integra lista dos 107 cientistas brasileiros que mais influenciam decisões em saúde no mundo | Imagem: Johnny Torres/FAMERP

No Brasil, são raros os cientistas que conseguem levar uma descoberta da bancada do laboratório até uma política pública capaz de impactar milhões de pessoas. Mais raro ainda é fazer isso repetidas vezes, em diferentes epidemias. O virologista Prof. Dr. Maurício Lacerda Nogueira, docente e diretor-adjunto de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), é uma dessas exceções — e acaba de ajudar a inscrever seu nome em mais um marco da ciência brasileira com o lançamento da vacina contra a dengue do Instituto Butantan.

Essa capacidade de transformar evidência científica em decisão concreta de saúde pública colocou Nogueira em um grupo altamente seleto. Seu nome integra a lista dos 107 cientistas brasileiros que mais influenciam decisões no mundo, segundo relatório divulgado pela Agência Bori em parceria com a plataforma Overton, que mapeou pesquisadores cujos estudos foram citados em documentos oficiais, diretrizes e políticas públicas globais. Ele figura em um grupo restrito de 22 especialistas em doenças infecciosas e vacinas que tiveram papel decisivo em respostas a surtos de zika, dengue e COVID-19, além de influenciar decisões relacionadas ao Programa Nacional de Imunizações (PNI).

O reconhecimento internacional se soma a outra distinção recente: o título de Distinguished International Fellow, concedido pela American Society of Tropical Medicine and Hygiene (ASTMH) — uma das mais altas honrarias em medicina tropical e saúde global. Maurício Nogueira também figura em um levantamento da Universidade de Stanford (EUA) entre os cientistas mais influentes do mundo, reforçando a projeção internacional de sua produção científica e a relevância de sua atuação no campo da virologia e da saúde pública.

Com uma trajetória marcada pela interface entre pesquisa, assistência e políticas públicas, Maurício Nogueira teve papel central no enfrentamento de grandes epidemias no Brasil e no exterior. Atuou em estudos durante as crises de zika e COVID-19, contribuiu para o desenvolvimento de novas técnicas diagnósticas e participou do desenvolvimento da vacina contra a dengue produzida pelo Instituto Butantan — lançada recentemente e considerada um dos principais marcos da ciência brasileira em saúde pública.

Em entrevista ao Science Arena, ele reflete sobre como a ciência produzida no Brasil pode influenciar decisões globais em saúde, os gargalos estruturais que ainda limitam a inovação no país e os caminhos para transformar evidência científica em políticas públicas capazes de salvar vidas.

Science Arena: Você construiu uma trajetória rara no Brasil, combinando ciência de ponta e influência em políticas públicas. Em que momento percebeu que a pesquisa precisava extrapolar o laboratório para gerar impacto real na saúde coletiva?

Maurício Lacerda Nogueira – Isso é mais consequência do que um processo ativo. Foi consequência de um trabalho que sempre esteve muito próximo do serviço de saúde aqui de Rio Preto. Há 20 anos estamos trabalhando muito próximos do sistema de saúde local, da Secretaria de Saúde local, fornecendo informações e transferindo o que descobrimos no laboratório para saúde pública. Com o tempo, os projetos vão se tornando mais complexos e passam a ter influências em políticas, como as políticas de vacina. Foi mais uma consequência natural de trabalhar próximo ao sistema de saúde.

Na sua experiência, qual é hoje o principal gargalo para que evidências científicas se transformem em decisões concretas em saúde pública no Brasil?

O principal gargalo ainda é a dissociação do serviço de saúde da academia. A pandemia de COVID-19 mostrou que essa era uma dicotomia absurda e que precisávamos trabalhar juntos. Isso tem melhorado muito nos últimos anos no Brasil.

Epidemias como a da dengue, zika e COVID-19 colocaram o país no centro da ciência global. O que essas crises revelam sobre nossas capacidades e fragilidades institucionais e científicas?

A zika colocou o Brasil no centro da ciência global, e nossas capacidades são muito grandes. O Brasil tem corpo científico altamente qualificado, juventude que participa da ciência, alunos voluntariosos que correm atrás, acesso à informação e infraestrutura. Mas temos fragilidades enormes, e a maior delas é a total falta de previsibilidade de financiamento. Dependemos muito de momentos e humores de governo e transições políticas. Respondemos muito bem à zika num momento de grande financiamento, mas respondemos muito mal à febre amarela logo em seguida, porque estávamos num momento de muito baixo financiamento. 

Falta um compromisso dos políticos brasileiros em todos os níveis com a manutenção da ciência. É preciso entender que a ciência é um programa de Estado, não de governo.

A resposta brasileira à epidemia de zika foi internacionalmente reconhecida. Que aprendizados desse período ainda não conseguimos transformar em políticas estruturantes permanentes?

Esse é exatamente o ponto: não conseguimos transformar em política permanente porque não fazemos planejamento de longo prazo — é tudo resposta, é tudo mobilização. Quando começou a zika, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), nossas grandes agências de fomento, fizeram programas e mobilizaram recursos. Com o tempo, esses programas vão diminuindo. Veio a COVID-19, mobilizou tudo novamente, criou novos programas — inclusive com financiamento privado —, mas isso também vai sumindo. Não temos planejamento estratégico de longo prazo em ciência no Brasil.

Durante a pandemia de COVID-19, a ciência enfrentou forte politização. Como isso impactou o diálogo entre pesquisadores, gestores e sociedade?

A politização da ciência na COVID-19 foi o pior momento de todos. Em meus 30 anos de vida acadêmica no Brasil, esse foi o ponto mais baixo que chegamos. Houve perseguição a cientistas, mistura da figura pessoal e da política pessoal do pesquisador com o trabalho que ele desenvolve. Cientistas foram perseguidos nas redes, vítimas do gabinete do ódio. Isso prejudicou muito a comunicação e a resposta brasileira, causou impacto em vidas com atrasos de vacina.

O tempo, como dizem os políticos, é o senhor da razão. Vemos agora a notícia de que o doutor Marcus Lacerda, provavelmente o cientista mais atacado na pandemia, foi nomeado [em 15 de janeiro de 2026] diretor do Programa de Pesquisa em Doenças Tropicais (TDR) da Organização Mundial de Saúde — um cargo importantíssimo que mostra a importância da ciência brasileira no mundo. Quem mais apanhou hoje ocupa uma das posições mais importantes para cientistas brasileiros.

Atuar com virologia em um país tropical é mais um desafio constante ou uma oportunidade estratégica para o Brasil se afirmar como liderança global?

Atuar no Brasil é uma oportunidade enorme. As doenças tropicais fazem parte do nosso dia a dia, da nossa vida. É um desafio porque as demandas são mais urgentes, mas também é uma oportunidade: temos a capacidade de estar muito próximos dos problemas e de responder claramente a essas demandas. 

Lembro de um jantar há alguns anos na Sociedade Americana de Medicina Tropical, com pesquisadores da área de dengue. Um dizia “faço minha pesquisa na Indonésia”, outro “vou sempre para a Colômbia”, outro “vou sempre para a África”. Brinquei: “Eu atravesso a rua — o hospital fica do outro lado do meu laboratório”. Isso é uma facilidade.

Temos os problemas inerentes do Brasil: falta de financiamento de longo prazo, volumes muito mais baixos do que pesquisadores de outros países têm acesso. Mas temos nossas vantagens estratégicas, sim.

O senhor participou do desenvolvimento da vacina contra dengue do Instituto Butantan. O que essa experiência revela sobre o potencial — e os limites — da inovação em saúde no país?

O desenvolvimento da vacina do Butantan é, no meu entendimento, um dos maiores avanços da ciência brasileira de toda a história. É um estudo que custou muitos recursos públicos, mas mostrou a capacidade do Brasil de desenvolver a vacina, de realizar um estudo clínico de alta complexidade e longa duração. O Butantan coordenou esse trabalho com todos os centros participantes, e tivemos o prazer de fazer parte disso. Esse investimento vai causar um impacto enorme em saúde pública nos próximos anos, com a vacina chegando à população brasileira e diminuindo o impacto da dengue no Brasil.

A partir da sua atuação internacional, como a ciência brasileira é percebida nos fóruns globais de virologia e saúde pública?

O Brasil é muito reconhecido nas áreas de virologia, saúde pública e medicina tropical. A prova disso está na nomeação do Marcus Lacerda como diretor do TDR. Até o ano passado, eu era presidente do Comitê Americano de Arbovirose — ou seja, um brasileiro presidindo um comitê da Sociedade Americana de Medicina Tropical. O Brasil está sempre representado em órgãos como a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). 

O Brasil e os cientistas brasileiros são respeitados internacionalmente. Precisamos de uma política de longo prazo que nos permita devolver isso com maior frequência à sociedade brasileira.

O senhor atua ativamente em instituições internacionais, como a University of Texas Medical Branch. Como a ciência brasileira é vista/recebida nesses espaços?

Ela é muito bem vista e reconhecida nas universidades do exterior. Por outro lado, eles também conhecem nossas deficiências, principalmente as irregularidades de financiamento. Trabalhar na interseção entre os sistemas brasileiro e internacional nos dá alguma vantagem.

Qual tipo de colaboração internacional o senhor acha mais estratégica hoje: grandes consórcios globais ou redes mais horizontais entre países com desafios semelhantes?

Ambas são importantes, cada uma com características próprias. Os grandes consórcios globais nos permitem acessar recursos e tecnologias que não estão disponíveis nas redes horizontais. Já as redes horizontais nos conectam com países que enfrentam desafios e problemas semelhantes — mas, por outro lado, também enfrentam as mesmas limitações de recursos que nós.

As mudanças climáticas tendem a ampliar o alcance das arboviroses. O Brasil está se preparando adequadamente para esse novo cenário epidemiológico?

O aquecimento global e as mudanças climáticas têm impactado significativamente a distribuição dessas arboviroses. Tivemos circulação de dengue na Califórnia, chikungunya em Nova York e na França, dengue na França e no Japão — o aumento das temperaturas está levando a uma maior dispersão do mosquito e, consequentemente, dos casos dessas doenças.

Isso também está acontecendo no Brasil. Nos últimos dois anos tivemos uma epidemia muito importante de dengue em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, numa área onde não existia circulação. O que estamos fazendo é ajudar a capacitar uma geração de pesquisadores, cientistas e agentes de saúde pública que não estavam preparados para trabalhar com essas doenças porque historicamente elas não existiam lá.

Por sorte, temos infraestrutura, cientistas e profissionais de saúde pública que podem capacitar — e é isso que tem sido feito.

A vigilância brasileira é suficiente para antecipar surtos ou ainda operamos reativamente?

Ainda somos muito reativos. Temos uma boa vigilância, mas por vários motivos ainda é reativa. Uma demonstração disso é que tanto o Sabiá [vírus brasileiro de alta letalidade] quanto o SARS-CoV-2 [vírus causador da COVID-19] foram identificados primeiro na rede privada, não na rede pública. Isso mostra que há uma defasagem na vigilância pública em alguns momentos, especialmente pela falta de recursos. A COVID-19 nos trouxe recursos e treinamento, mas essa vigilância ainda precisa ser expandida.

Que lições dessas grandes epidemias ainda não foram plenamente incorporadas às políticas de vigilância e preparação para emergências sanitárias?

As lições foram incorporadas. O problema é que são esquecidas ou deixam de ser prioridades. Todo o trabalho feito em conjunto entre sistema público de saúde e universidades durante a pandemia foi abandonado. Esse é um problema no Brasil: não é criar os planos, é dar continuidade a eles.

Como equilibrar pesquisa de excelência com demandas urgentes do sistema sem comprometer a qualidade científica?

A forma de equilibrar excelência na pesquisa com demandas urgentes do sistema sem comprometer a qualidade científica é direta: financiamento. Precisamos ter recursos adequados para fazer um trabalho de que atenda às demandas locais. Mas isso depende de financiamento sustentado

Como diretor-adjunto de pós-graduação, que tipo de pesquisador o Brasil precisa formar para enfrentar os desafios sanitários das próximas décadas e fortalecer a conexão entre ciência e políticas públicas?

É difícil termos receitas prontas. O pesquisador que devemos formar tem que ser absolutamente de alta qualidade, que saiba fazer perguntas e consiga responder às demandas de saúde pública. Os desafios sanitários são enormes, os nossos recursos são limitados, então temos que formar uma geração de pesquisadores que tenham compromisso com a saúde pública, com a boa ciência e com responder às necessidades do país.

Que conselhos o senhor daria para nós, jovens cientistas, que desejamos ver nossas pesquisas influenciar decisões concretas em saúde pública?

O jovem pesquisador não pode abrir mão da excelência do trabalho. Esse é um ponto-chave. Fazer as boas perguntas, trabalhar com demandas realistas e fazer uma ciência de qualidade é a saída correta.

Se o Brasil tivesse hoje uma política nacional robusta de ciência voltada à saúde pública, que áreas o senhor priorizaria para maximizar impacto social e influência internacional nos próximos 10 a 20 anos?

É difícil priorizar uma área, embora tenhamos que fazer isso porque os recursos são limitados. O Brasil tem uma característica muito própria: ao mesmo tempo que temos doenças tropicais — dengue, chikungunya — também enfrentamos problemas típicos de países desenvolvidos, como envelhecimento populacional e doenças cardiovasculares. 

O Brasil precisa fazer o que faz de melhor: criar grandes infraestruturas de ciência que permitam mudanças importantes. Temos centros como o Laboratório Nacional de Computação Científica [LNCC], o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron [Sirius], o futuro Laboratório de Biossegurança Nível 4 [ORION] — estruturas muito fortes que vão dar ao cientista brasileiro a possibilidade de fazer trabalho de ponta em diversas áreas do conhecimento.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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