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27.04.2026 América Latina

Ciência na América Latina cresce, mas segue com baixo investimento, diz Gabriela Dutrénit

Referência em políticas de inovação, pesquisadora mexicana analisa limites estruturais e caminhos para ampliar o protagonismo científico da região

Fotografia de Gabriela Dutrénit, mulher de cabelos grisalhos curtos, óculos de armação escura e brincos azuis, vestindo blusa estampada em azul e branco. Ela sorri, em pé diante de uma parede branca com cartazes afixados “As novas gerações trazem ideias novas, mas precisam dialogar com pesquisadores mais experientes”, diz Gabriela Dutrénit, professora da Universidad Autónoma Metropolitana e pesquisadora emérita do Sistema Nacional de Investigadores do México | Imagem: Caro Zapa/Wikimedia Commons

“As novas gerações trazem ideias novas, mas precisam dialogar com pesquisadores mais experientes. Criar espaços mais inclusivos é essencial para fortalecer o sistema científico”, afirma a economista Gabriela Dutrénit, professora da Universidad Autónoma Metropolitana (UAM) e membro da Academia Mexicana de Ciências.

Referência nos estudos sobre políticas de ciência, tecnologia e inovação na América Latina, Dutrénit é uma das principais autoras do Unesco Science Report: The Race Against Time for Smarter Development, publicado em 2021 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

O relatório, considerado uma das principais referências globais sobre tendências em ciência e inovação, trouxe um diagnóstico importante para a região: entre 2014 e 2018, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento caíram 7% na América Latina, na contramão do crescimento global, com redução de 15% no investimento por pesquisador.

“O gasto em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB é baixo e historicamente insuficiente na região. Ainda assim, a produção científica cresce, demonstrando o compromisso da comunidade científica latino-americana”, disse a pesquisadora em entrevista exclusiva ao Science Arena.

Com trajetória dedicada à economia da inovação e às políticas científicas, Dutrénit (nascida no Uruguai, mas naturalizada maxicana) também integra o comitê científico da GLOBELICS, rede internacional voltada ao estudo da inovação em países em desenvolvimento. 

Seu trabalho analisa, entre outros pontos, os limites estruturais dos sistemas científicos latino-americanos e os caminhos possíveis para ampliar sua inserção global.

Os temas discutidos pela pesquisadora dialogam diretamente com a agenda do evento Vozes da Ciência Latino-Americana, promovido pelo Einstein Hospital Israelita e marcado para o dia 06 de maio de 2026 em São Paulo. 

O encontro reunirá lideranças científicas do continente para refletir sobre os desafios e as oportunidades da produção científica na região, com foco em cooperação, financiamento e desenvolvimento de capacidades estratégicas.

Embora não participe do evento, a análise de Dutrénit ajuda a contextualizar os debates propostos pelo encontro, oferecendo um panorama sobre as transformações recentes da ciência latino-americana e os desafios que ainda limitam seu protagonismo global.

Na entrevista ao Science Arena, a pesquisadora discute os impactos da pandemia de Covid-19 sobre os sistemas de ciência e inovação, os entraves ao financiamento público e privado, e as perspectivas da região em um cenário de mudanças geopolíticas e tecnológicas aceleradas.

Science Arena – Como você caracterizaria o estado atual da ciência na América Latina? Até que ponto segue vigente o diagnóstico da Unesco de 2021?

Gabriela Dutrénit – A ciência na América Latina já apresentava avanços importantes no início do século XX, especialmente em países como Argentina, Brasil e México. A Argentina teve desenvolvimento expressivo até a Segunda Guerra Mundial [1939-1945], sobretudo na área nuclear, enquanto o Brasil avançou mais lentamente no início, mas depois acelerou e superou outros países. O México também se destacou em áreas como farmacêutica, química e ciências agropecuárias. 

A criação dos programas de pós-graduação entre as décadas de 1960 e 1980 impulsionou fortemente a pesquisa, mas é importante destacar que não existe uma única América Latina, e sim realidades distintas, com países maiores avançando mais rapidamente do que os menores. 

O ponto central continua sendo o investimento. O gasto em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB [Produto Interno Bruto] é baixo e historicamente insuficiente. 

Ainda assim, a produção científica cresce, demonstrando o compromisso da comunidade científica, embora a participação global permañeca limitada, com o Brasil contribuindo com pouco mais de 2% e o México com cerca de 0,7%.

Como a Covid-19 transformou o sistema científico latino-americano e quais lições ficam para as políticas públicas?

A pandemia expôs fragilidades estruturais, especialmente a dependência de países desenvolvidos para acesso a vacinas e insumos. Apesar de iniciativas em países como Brasil, México e Argentina, faltaram coordenação e apoio consistente. 

A principal lição [da pandemia de Covid-19] é a necessidade de desenvolver capacidades próprias em áreas estratégicas, sobretudo nas ciências da vida, garantindo autonomia mínima em setores críticos.

Como as transformações geopolíticas recentes impactam a inserção da América Latina no sistema científico global?

A América Latina mantém relevância global por seus mercados, recursos e capital humano, embora com dinâmicas distintas entre países. 

O México está mais integrado ao mercado norte-americano, enquanto Brasil e Argentina seguem outros caminhos. A inserção internacional poderia ser fortalecida com maior investimento público e pelo papel de empresas multinacionais da região, que criam vínculos com universidades e centros de pesquisa ao investir em inovação.

Qual é o papel da cooperação internacional, especialmente entre países do Sul Global?

A cooperação existe, mas ainda é concentrada em países centrais, principalmente os Estados Unidos, devido à disponibilidade de recursos. 

A colaboração entre países latino-americanos permanece limitada, apesar do potencial, sobretudo em áreas como medicina, meio ambiente, mudanças climáticas e doenças infecciosas. O principal desafio segue sendo o financiamento para viabilizar projetos colaborativos de maior escala.

Há sinais positivos na aproximação entre países latino-americanos, com oportunidades de cooperação em áreas estratégicas que possam gerar benefícios científicos, tecnológicos e econômicos.

O modelo atual de financiamento científico precisa de mudanças estruturais?

Sem dúvida. Entre 60% e 80% do financiamento vem do setor público, enquanto o setor privado contribui pouco. Falta uma visão estratégica que reconheça o papel da ciência, tecnologia e inovação no desenvolvimento econômico, além de maior coordenação e concentração de investimentos.

Quais tendências devem aparecer nos próximos relatórios sobre ciência e inovação na região?

A produção científica deve continuar crescendo, mas de forma lenta, sem mudanças significativas na posição global. Ganham destaque áreas como mudanças climáticas, doenças infecciosas e transformação digital, com avanço da inteligência artificial.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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