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por Samuel Fernandes
Referência em políticas de inovação, pesquisadora mexicana analisa limites estruturais e caminhos para ampliar o protagonismo científico da região
“As novas gerações trazem ideias novas, mas precisam dialogar com pesquisadores mais experientes”, diz Gabriela Dutrénit, professora da Universidad Autónoma Metropolitana e pesquisadora emérita do Sistema Nacional de Investigadores do México | Imagem: Caro Zapa/Wikimedia Commons
“As novas gerações trazem ideias novas, mas precisam dialogar com pesquisadores mais experientes. Criar espaços mais inclusivos é essencial para fortalecer o sistema científico”, afirma a economista Gabriela Dutrénit, professora da Universidad Autónoma Metropolitana (UAM) e membro da Academia Mexicana de Ciências.
Referência nos estudos sobre políticas de ciência, tecnologia e inovação na América Latina, Dutrénit é uma das principais autoras do Unesco Science Report: The Race Against Time for Smarter Development, publicado em 2021 pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
O relatório, considerado uma das principais referências globais sobre tendências em ciência e inovação, trouxe um diagnóstico importante para a região: entre 2014 e 2018, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento caíram 7% na América Latina, na contramão do crescimento global, com redução de 15% no investimento por pesquisador.
“O gasto em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB é baixo e historicamente insuficiente na região. Ainda assim, a produção científica cresce, demonstrando o compromisso da comunidade científica latino-americana”, disse a pesquisadora em entrevista exclusiva ao Science Arena.
Com trajetória dedicada à economia da inovação e às políticas científicas, Dutrénit (nascida no Uruguai, mas naturalizada maxicana) também integra o comitê científico da GLOBELICS, rede internacional voltada ao estudo da inovação em países em desenvolvimento.
Seu trabalho analisa, entre outros pontos, os limites estruturais dos sistemas científicos latino-americanos e os caminhos possíveis para ampliar sua inserção global.
Os temas discutidos pela pesquisadora dialogam diretamente com a agenda do evento Vozes da Ciência Latino-Americana, promovido pelo Einstein Hospital Israelita e marcado para o dia 06 de maio de 2026 em São Paulo.
O encontro reunirá lideranças científicas do continente para refletir sobre os desafios e as oportunidades da produção científica na região, com foco em cooperação, financiamento e desenvolvimento de capacidades estratégicas.
Embora não participe do evento, a análise de Dutrénit ajuda a contextualizar os debates propostos pelo encontro, oferecendo um panorama sobre as transformações recentes da ciência latino-americana e os desafios que ainda limitam seu protagonismo global.
Na entrevista ao Science Arena, a pesquisadora discute os impactos da pandemia de Covid-19 sobre os sistemas de ciência e inovação, os entraves ao financiamento público e privado, e as perspectivas da região em um cenário de mudanças geopolíticas e tecnológicas aceleradas.
Gabriela Dutrénit – A ciência na América Latina já apresentava avanços importantes no início do século XX, especialmente em países como Argentina, Brasil e México. A Argentina teve desenvolvimento expressivo até a Segunda Guerra Mundial [1939-1945], sobretudo na área nuclear, enquanto o Brasil avançou mais lentamente no início, mas depois acelerou e superou outros países. O México também se destacou em áreas como farmacêutica, química e ciências agropecuárias.
A criação dos programas de pós-graduação entre as décadas de 1960 e 1980 impulsionou fortemente a pesquisa, mas é importante destacar que não existe uma única América Latina, e sim realidades distintas, com países maiores avançando mais rapidamente do que os menores.
O ponto central continua sendo o investimento. O gasto em pesquisa e desenvolvimento como proporção do PIB [Produto Interno Bruto] é baixo e historicamente insuficiente.
Ainda assim, a produção científica cresce, demonstrando o compromisso da comunidade científica, embora a participação global permañeca limitada, com o Brasil contribuindo com pouco mais de 2% e o México com cerca de 0,7%.
A pandemia expôs fragilidades estruturais, especialmente a dependência de países desenvolvidos para acesso a vacinas e insumos. Apesar de iniciativas em países como Brasil, México e Argentina, faltaram coordenação e apoio consistente.
A principal lição [da pandemia de Covid-19] é a necessidade de desenvolver capacidades próprias em áreas estratégicas, sobretudo nas ciências da vida, garantindo autonomia mínima em setores críticos.
A América Latina mantém relevância global por seus mercados, recursos e capital humano, embora com dinâmicas distintas entre países.
O México está mais integrado ao mercado norte-americano, enquanto Brasil e Argentina seguem outros caminhos. A inserção internacional poderia ser fortalecida com maior investimento público e pelo papel de empresas multinacionais da região, que criam vínculos com universidades e centros de pesquisa ao investir em inovação.
A cooperação existe, mas ainda é concentrada em países centrais, principalmente os Estados Unidos, devido à disponibilidade de recursos.
A colaboração entre países latino-americanos permanece limitada, apesar do potencial, sobretudo em áreas como medicina, meio ambiente, mudanças climáticas e doenças infecciosas. O principal desafio segue sendo o financiamento para viabilizar projetos colaborativos de maior escala.
Há sinais positivos na aproximação entre países latino-americanos, com oportunidades de cooperação em áreas estratégicas que possam gerar benefícios científicos, tecnológicos e econômicos.
Sem dúvida. Entre 60% e 80% do financiamento vem do setor público, enquanto o setor privado contribui pouco. Falta uma visão estratégica que reconheça o papel da ciência, tecnologia e inovação no desenvolvimento econômico, além de maior coordenação e concentração de investimentos.
A produção científica deve continuar crescendo, mas de forma lenta, sem mudanças significativas na posição global. Ganham destaque áreas como mudanças climáticas, doenças infecciosas e transformação digital, com avanço da inteligência artificial.
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