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08.07.2026 Terapias Avançadas

Brasil pode ganhar destaque global em terapias celulares e gênicas, diz Martin Bonamino

Pesquisador do INCA analisa os desafios das células CAR-T, os caminhos para ampliar o acesso pelo SUS e o potencial da edição genética para transformar a medicina

Homem branco de cabelos castanhos com fios grisalhos e barba curta rala, vestindo camisa marrom-acinzentada de botões, com expressão neutra e olhar direto para a câmera, em retrato de busto contra fundo liso cinza-claro. "A edição genética está na base da criação de células universais e pode ter seu desenvolvimento acelerado por ferramentas de inteligência artificial", diz Martin Bonamino, chefe do Programa de Imunoterapia Celular e Gênica do Instituto Nacional de Câncer (INCA) | Imagem: Arquivo pessoal

O Brasil tem condições de articular ações nacionais, com o respaldo do Ministério da Saúde, que poucos países conseguem mobilizar no campo das terapias celulares e gênicas, incluindo a produção de insumos críticos. Esse arranjo pode aumentar a competitividade do país e colocá-lo em posição de destaque no desenvolvimento de terapias avançadas.

A avaliação é do biólogo Martin Bonamino, chefe do Programa de Imunoterapia Celular e Gênica do Instituto Nacional de Câncer (INCA), presidente da Associação Brasileira de Terapia Celular e Gênica e chair do Outreach Committee da American Society of Gene & Cell Therapy.

Entre os avanços mais importantes dessa área estão as terapias com células CAR-T, que utilizam células de defesa modificadas em laboratório para reconhecer e atacar o câncer. 

A estratégia já alcançou resultados expressivos no tratamento de alguns cânceres hematológicos, como leucemias, linfomas e mieloma múltiplo. 

Sua expansão, no entanto, ainda esbarra em desafios como a duração da resposta ao tratamento, a aplicação em tumores sólidos e os altos custos de produção, um obstáculo especialmente relevante para sua incorporação aos sistemas públicos de saúde.

Em entrevista ao Science Arena, Bonamino analisa os caminhos para ampliar e prolongar a eficácia das terapias CAR-T, as perspectivas de sua aplicação em tumores sólidos e o potencial do Brasil para desenvolver e produzir terapias avançadas. 

O pesquisador também discute as estratégias para ampliar o acesso a esses tratamentos e explica por que considera a edição genética uma das tecnologias com maior potencial para transformar a medicina nos próximos anos.

Science Arena – As terapias CAR-T transformaram o tratamento de alguns cânceres hematológicos. Quais são os principais desafios para ampliar e prolongar esses resultados e reproduzi-los nos tumores sólidos?

Martin Bonamino – Nos cânceres hematológicos, um dos principais desafios é que as células CAR-T nem sempre permanecem tempo suficiente no organismo para eliminar todas as células tumorais. Isso está relacionado à qualidade das células T coletadas do próprio paciente para fabricar o tratamento. 

Como esses pacientes geralmente já passaram por várias terapias, suas células podem estar menos funcionais. Para contornar o problema, as células podem ser coletadas mais precocemente ou obtidas de doadores saudáveis.

Outro mecanismo de resistência ocorre quando as células tumorais deixam de expressar o alvo reconhecido pelas CAR-T, tornando-se invisíveis ao sistema imune. Uma estratégia para superar essa limitação é desenvolver células CAR-T capazes de reconhecer mais de um alvo tumoral.

Nos tumores sólidos, além desses desafios, o próprio microambiente do tumor costuma bloquear a ação dos linfócitos antitumorais. Modificações adicionais nas células CAR-T podem torná-las mais resistentes a esses mecanismos de defesa. 

Os primeiros resultados são promissores, mas as taxas de sucesso ainda permanecem inferiores às observadas nos cânceres do sangue.

O Brasil consegue ser um dos protagonistas no desenvolvimento de terapias celulares e gênicas ou ainda depende excessivamente de tecnologias produzidas no exterior?

O Brasil tem capacidade para desenvolver e produzir no campo das terapias avançadas (que englobam as terapias celulares e gênicas). Dependemos menos de tecnologias no exterior e mais dos insumos que são produzidos fora. 

Não há equivalentes na produção nacional e eles apresentam altos custos e muita demora para chegar ao país quando adquiridos. Isso reduz a competitividade do Brasil para o desenvolvimento de novas terapias. 

No entanto, o país tem uma capacidade de orquestrar ações nacionais com o respaldo do Ministério da Saúde que outros países não possuem, incluindo a produção de insumos críticos para estas terapias avançadas. Esse arranjo pode tornar o Brasil mais competitivo e colocá-lo em posição de destaque global.

Qual é o maior obstáculo para democratizar o acesso às terapias CAR-T e fazê-las chegar a um número maior de pacientes?

Neste momento, temos alguns desafios grandes. O primeiro deles é o valor que está sendo cobrado para o preparo desta terapia por cada paciente. A alternativa adotada pelo país vem sendo produzir a terapia localmente, em centros especializados. 

“Este modelo tem o potencial de oferecer, através do SUS, a terapia a um custo que possa ser incorporado, desatando um dos principais nós que temos.”

O que se tem hoje de resultados sobre custo-efetividade em torno das terapias celulares?

Ainda com estes valores elevados de comercialização, estas terapias possuem um perfil bastante favorável de segurança e toxicidade e um resultado de desfecho muito positivo. Intervenções como as terapias com células CAR-T apresentam custos elevados, mas também menos complicações (e potencialmente menor custo) quando comparados a alternativas terapêuticas mais agressivas, como é o caso do transplante de medula óssea a partir de doadores. 

O barateamento do processo de produção das células CAR-T e a eventual maior potência antitumoral das células CAR-T geradas mais recentemente tendem a aumentar ainda mais este perfil de custo-efetividade, através da redução de custos e melhoria dos desfechos.

Os modelos celulares e tecnologias de modificação genética podem ajudar a entender melhor outras doenças, além do câncer?

Sem dúvida. As tecnologias de edição genética são hoje uma das principais ferramentas para estudar doenças. Elas permitem criar modelos biológicos que reproduzem essas condições em laboratório e avaliar se terapias gênicas em desenvolvimento podem beneficiar pacientes com doenças de origem genética. 

Essa forma rápida e direta de compreender a doença e testar possíveis soluções está revolucionando a medicina.

Entre edição gênica, células universais e inteligência artificial, qual tecnologia tem maior potencial para transformar a pesquisa biomédica e a prática clínica nos próximos anos?

Acredito que a edição genética será o principal fator nessa equação. Ela está na base da criação de células universais e pode ter seu desenvolvimento acelerado por ferramentas de inteligência artificial.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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