#Entrevistas
O que leva pesquisadores em início de carreira a comunicar ciência
Lennart Banse discute por que reconhecimento simbólico à divulgação científica nem sempre se traduz em apoio concreto
Em entrevista ao Science Arena, Lennart Banse discute os desafios de cientistas que também se veem como comunicadores | Imagem: Arquivo Pessoal
À medida que a comunicação científica passa a ser tratada como parte das responsabilidades profissionais de pesquisadores, uma pergunta se torna cada vez mais concreta: quem estimula, na prática, o engajamento de cientistas em início de carreira?
Um artigo publicado este ano no Journal of Science Communication (JCOM) investiga essa questão a partir de entrevistas com 24 pesquisadores em início de carreira das áreas STEM (ciências, tecnologia, engenharias e matemática) na Alemanha, todos envolvidos regularmente em atividades de divulgação científica.
Assinado por Lennart Banse, Fenja Heinke e Friederike Hendriks, o estudo mostra que, entre jovens pesquisadores com forte identidade como comunicadores, o reconhecimento e o apoio costumam vir mais de redes pessoais, comunidades de comunicação científica e do próprio público do que de suas instituições acadêmicas.
O ambiente de trabalho, segundo os autores, tende a ser percebido como menos decisivo (e, em alguns casos, apenas permissivo) para a formação dessas identidades comunicativas.
Lennart Banse, o autor principal do paper, é pesquisador de pós-doutorado no Institute for Communication Science da Technische Universität Braunschweig, na Alemanha. Em seu doutorado, investigou os papéis e as identidades de comunicadores na divulgação científica, com ênfase em como fatores presentes nas organizações de pesquisa influenciam as percepções e os conceitos de papel profissional desses comunicadores.
Em entrevista ao Science Arena, Banse discute os desafios enfrentados por pesquisadores em início de carreira que desejam comunicar ciência, os limites do apoio institucional, o papel de orientadores, agências de fomento e equipes profissionais de comunicação, além dos riscos de tratar a divulgação científica apenas como instrumento de visibilidade.
Para ele, a questão central não é simplesmente ampliar o volume de ações de comunicação: “O sistema de pesquisa precisa de uma integração mais profunda e significativa da comunicação nas trajetórias de carreira, nas estruturas profissionais e nas instituições científicas existentes.”
Science Arena – O artigo publicado no Journal of Science Communication (JCom) mostra que estudantes de doutorado em áreas STEM na Alemanha que já se envolvem com comunicação científica têm identidades comunicativas fortes, sustentadas principalmente por redes pessoais, comunidades de comunicação científica e público. Ao mesmo tempo, o apoio institucional é fraco e muitas vezes apenas permissivo. O que significa ter uma “identidade comunicativa forte” dentro da comunidade científica?
Lennart Banse – Essa questão foi um dos temas centrais que meus colegas do grupo de pesquisa fourC e eu investigamos intensamente ao longo dos últimos quatro anos, utilizando uma variedade de estudos e abordagens metodológicas no sistema acadêmico alemão.
Queríamos compreender como os cientistas se definem em sua profissão e de que maneira a comunicação científica, como um papel profissional emergente, pode se relacionar com essas autodefinições.
Para dar uma resposta breve: em nosso estudo recente (aquele ao qual você se refere), assim como em um segundo estudo aprofundado com professores experientes na Alemanha, constatamos que uma parcela significativa dos cientistas entrevistados apresentava autoconcepções, ou identidades, nas quais se entendiam, em determinadas situações, como comunicadores, e não apenas como ocupantes de papéis científicos tradicionais, como pesquisadores ou docentes.
Embora essas identidades ligadas à comunicação estejam fortemente conectadas ao papel de pesquisador acadêmico, elas se associam a objetivos, motivações, valores, normas e contextos sociais internalizados distintos.
Como assim?
Por exemplo, muitos cientistas se descreveram como construtores de pontes ou interfaces entre suas áreas científicas e públicos mais amplos. Nessas situações, seus objetivos deixam de ser a produção de novo conhecimento e passam a se concentrar em tornar o conhecimento existente acessível e significativo do ponto de vista de públicos leigos.
Identificamos que alguns pesquisadores em início de carreira chegam a se identificar mais fortemente com esses papéis de comunicador do que com os papéis acadêmicos clássicos.
No entanto, e este é um ponto importante a enfatizar, cientistas altamente identificados com a comunicação ainda representam uma minoria absoluta no sistema científico alemão.
A forte identificação com o papel de comunicador frequentemente deriva de predisposições pessoais e de um interesse precoce por formatos criativos e comunicativos, muitas vezes anterior ao ingresso na carreira acadêmica.
Quais são os principais desafios enfrentados por esses cientistas?
Justamente por constituírem uma minoria tão pequena, esses cientistas orientados à comunicação frequentemente percebem desafios significativos para gerir e integrar simultaneamente suas identidades como pesquisadores e comunicadores.
Isso ocorre principalmente porque as estruturas de apoio e recompensa da profissão científica tradicional na Alemanha — e de forma semelhante em muitos outros países — passaram a reconhecer e valorizar simbolicamente o engajamento em comunicação científica.
Contudo, quando se trata de oferecer incentivos sustentáveis e suporte estrutural efetivo, a maioria dos cientistas percebe pouca priorização real das atividades de comunicação.
Você e seus colegas entrevistaram 24 estudantes de doutorado que atuam em áreas STEM (ciências, tecnologia, engenharias e matemática) e constataram que, para pesquisadores em início de carreira, a principal motivação para se engajar na comunicação científica é contar com uma forte rede de apoio composta por colegas, orientadores, amigos e familiares. Que tipo de apoio essa rede oferece a esses jovens pesquisadores?
Para quase todos os cientistas entrevistados, a principal motivação para se engajar na comunicação científica estava enraizada em uma motivação intrínseca. A maioria relatou que realmente gostava de planejar, desenvolver e executar formatos de comunicação, frequentemente descrevendo sentimentos de prazer e realização ao se envolver nessas atividades.
É importante destacar, portanto, que não estamos falando de cientistas que foram empurrados ou pressionados a assumir papéis de comunicação. Trata-se, ao contrário, de indivíduos que já eram intrinsecamente motivados a atuar como comunicadores de ciência, em grande parte de forma voluntária.
A motivação partiu dessa rede de familiares, amigos etc.?
As relações sociais não criaram essa motivação, mas desempenharam um papel crucial em moldá-la, estruturá-la e sustentá-la. Diferentes redes de apoio, expectativas e reconhecimento contribuíram para o desenvolvimento de identidades, por vezes bastante distintas, como “cientistas comunicadores”.
A relação mais importante identificada nas entrevistas foi com seus públicos e seguidores. O feedback contínuo, a interação e o reconhecimento percebido (seja em formatos presenciais, como eventos do tipo science slam, seja por meio de canais digitais) atuaram como uma espécie de motor que alimentava essa motivação pré-existente e contribuía para o desenvolvimento de uma identidade de comunicador profundamente internalizada.
Nesse sentido, o engajamento com o público, e a experiência de gerar um impacto visível e concreto na vida de pessoas leigas em ciência, parecem ser componentes-chave para sustentar, no longo prazo, a motivação dos cientistas para a comunicação.
Ao mesmo tempo, emergiu um padrão bastante claro em relação ao apoio institucional dentro do sistema acadêmico, certo?
Quase todos os entrevistados relataram falta de suporte significativo para suas atividades de comunicação científica e, em alguns casos, até a percepção de restrições ativas.
Entre os exemplos estão orientadores de doutorado que desencorajavam o engajamento público e esperavam que os pesquisadores priorizassem a produção científica e tarefas administrativas, além de organizações ou departamentos de comunicação que buscavam controlar rigidamente a comunicação externa por meio de diretrizes e restrições, limitando a autonomia dos cientistas.
O que isso significa?
Isso aponta para um problema estrutural central no atual sistema acadêmico alemão. Como esses cientistas já se identificavam fortemente como comunicadores, passaram a buscar validação e reconhecimento para essa dimensão fora das instituições acadêmicas.
Alguns recorreram a redes pessoais, como amigos, familiares ou parceiros. Outros se engajaram em uma comunidade emergente de comunicadores da ciência na Alemanha, encontrando um senso de pertencimento em uma nova comunidade de prática, em vez de nos ambientes acadêmicos tradicionais.
Mas quando jovens cientistas passaram a ancorar suas identidades de comunicador principalmente nesses contextos externos, frequentemente começaram a separá-las explicitamente de suas identidades profissionais como cientistas acadêmicos.
Como consequência, as atividades de comunicação científica nesses casos passaram a girar cada vez mais em torno de marca pessoal ou do “prazer de interagir com pessoas com interesses semelhantes”, afastando-se gradualmente de valores acadêmicos centrais, como precisão factual, objetividade e a busca pela verdade.
Curiosamente, foi justamente o pequeno grupo de cientistas que relatou apoio institucional genuíno e reconhecimento para suas atividades de comunicação que conseguiu integrar com mais sucesso os valores e identidades acadêmicas clássicas aos seus papéis como comunicadores.
Um possível desdobramento desse achado é que há um potencial significativo ainda não explorado na criação de estruturas sustentáveis de apoio e reconhecimento à comunicação científica dentro das próprias instituições acadêmicas.
A manutenção das identidades comunicativas ainda depende mais de apoios privados (família, amigos etc.) do que das instituições de pesquisa. O que isso significa do ponto de vista de como o desempenho dos pesquisadores é avaliado na academia?
Os cientistas em início de carreira nas áreas STEM entrevistados relataram, de fato, a existência de orientadores que preferem ver tempo, esforço e dedicação investidos principalmente em atividades e produtos clássicos de pesquisa.
Consequentemente, tendem a encarar um envolvimento mais amplo em funções de divulgação científica com ceticismo ou até desaprovação. No entanto, isso depende fortemente das atitudes de cada orientador.
Em um nível mais amplo e sistêmico, a questão está enraizada na forma como o sucesso acadêmico é medido na Alemanha — de maneira semelhante ao que ocorre em muitos outros países.
A progressão na carreira científica ainda é amplamente avaliada com base em resultados quantificáveis, especialmente publicações revisadas por pares e a captação de recursos externos para pesquisa.
Esses critérios continuam a desempenhar um papel decisivo na definição de quem consegue, ao final, uma das poucas e altamente competitivas posições permanentes de professor, apesar dos esforços em curso para ampliar os sistemas de avaliação e incluir aspectos como qualidade do ensino ou impacto social.
A mesma lógica se aplica no nível organizacional?
Sim. Universidades e instituições de pesquisa também são avaliadas por indicadores de desempenho, como produção científica, financiamento externo e número de matrículas de estudantes.
A alocação futura de recursos costuma estar, ao menos em parte, vinculada ao cumprimento dessas metas. Como resultado, esses indicadores mensuráveis tendem a ter prioridade nas decisões cotidianas, uma dinâmica que, do ponto de vista humano e organizacional, é plenamente compreensível.
Ao mesmo tempo, a comunicação científica e o impacto social têm sido cada vez mais enquadrados como parte da chamada “terceira missão” da academia e vêm sendo mais demandados no debate político e público, além de receberem apoio por meio de programas específicos de financiamento.

Quais as consequências disso na Alemanha?
Organizações de pesquisa na Alemanha passaram a demonstrar interesse crescente em evidenciar engajamento visível na comunicação científica externa. Isso se concretiza, sobretudo, por meio de comunicadores profissionais que atuam em unidades de comunicação centralizadas e descentralizadas nas universidades, focando cada vez mais em formatos que destacam conteúdos científicos.
Em outro estudo do projeto, uma pesquisa de abrangência nacional, verificamos que esses comunicadores profissionais dependem dos cientistas de suas instituições para determinadas áreas da comunicação científica externa, especialmente na produção de novos conteúdos científicos e em formatos que exigem interação direta com públicos não especializados.
Assim, as organizações de pesquisa começaram a estabelecer redes internas e estruturas de incentivo voltadas à integração de cientistas em atividades de divulgação, quando necessário. No entanto, nossos dois estudos baseados em entrevistas indicam que essas estruturas são atualmente percebidas como, em grande medida, superficiais.
Por que?
Os entrevistados relataram que veem pouca relevância dessas atividades para suas trajetórias de carreira no longo prazo e experimentam um suporte sustentável limitado.
Em síntese, embora as organizações de pesquisa aparentem valorizar a comunicação científica realizada por cientistas em um nível simbólico — especialmente quando essas atividades atendem a interesses institucionais —, essa valorização frequentemente permanece superficial.
É importante destacar que muitos cientistas parecem estar plenamente conscientes dessa discrepância.
No Brasil, algumas das principais agências de fomento à pesquisa exigem que os pesquisadores submetam planos de comunicação ao solicitar financiamento para projetos. Também há casos em outros países em que as agências requerem o envolvimento dos pesquisadores em iniciativas de comunicação para ampliar o impacto social da ciência. Como as agências de fomento à pesquisa na Alemanha abordam essa questão?
Na Alemanha, as agências de fomento também têm buscado, de forma crescente, promover a comunicação e a divulgação científica diretamente dentro dos projetos de pesquisa, frequentemente sob a perspectiva do impacto social.
Alguns dos principais financiadores, como a Fundação Alemã de Amparo à Pesquisa (DFG), permitem que cientistas solicitem módulos adicionais opcionais dedicados à divulgação científica e à comunicação com o público.
Outros programas de financiamento, especialmente aqueles associados à Estratégia de Excelência, incluem componentes obrigatórios relacionados à divulgação, transferência de conhecimento e comunicação científica.
Em diversos estudos, bem como em conversas informais com pesquisadores e comunicadores científicos profissionais, identificamos um problema recorrente.
Embora o apoio financeiro à comunicação científica tenha claramente aumentado, e componentes comunicativos sejam, por vezes, explicitamente exigidos, essas atividades raramente são avaliadas de maneira sistemática e consistente em diferentes dimensões de sucesso, como impacto social, relevância científica ou resultados de aprendizagem.
Qual o impacto disso na prática?
Na prática, isso frequentemente leva tanto cientistas quanto comunicadores profissionais a apresentarem seus relatórios finais sobre atividades de comunicação científica de forma altamente seletiva, com forte ênfase em resultados positivos — por vezes superestimados.
Nesse sentido, observamos novamente um certo grau de superficialidade na forma como a comunicação científica é tratada.
Para alguns pesquisadores, as atividades de comunicação são percebidas principalmente como um meio de aumentar a visibilidade ou fortalecer perspectivas futuras de financiamento, enquanto os subprojetos de comunicação em si nem sempre são conduzidos com engajamento contínuo ou compromisso de longo prazo.
Como mudar esta situação?
Minha interpretação pessoal é que a comunicação científica só se tornará uma prioridade genuína no cotidiano profissional dos cientistas se existirem estruturas de incentivo e apoio realmente sustentáveis e relevantes para a carreira.
Essas estruturas precisariam ser capazes de captar e valorizar adequadamente a comunicação científica de alta qualidade — e não apenas a frequência das ações ou o alcance de público.
Atualmente, há um esforço significativo em curso no sistema científico alemão para desenvolver esse tipo de estrutura. Contudo, com base em nossos achados empíricos, essas iniciativas ainda não se traduziram plenamente na prática acadêmica cotidiana.
De que maneira a falta de apoio institucional pode ser prejudicial para pesquisadores em início de carreira que têm interesse em comunicar a ciência?
Essa é uma questão multifacetada. Uma resposta inicial e direta é que cientistas em início de carreira com apenas um interesse mediano em comunicação científica tendem a não se engajar com ela caso não percebam expectativas ou apoio nos ambientes profissionais que mais importam para eles.
Ao mesmo tempo, isso levanta uma questão mais fundamental: do ponto de vista social, é realmente desejável que todos os cientistas se envolvam ativamente na comunicação científica? Na literatura acadêmica, há argumentos consistentes contrários a essa ideia.
Destaca-se, sobretudo, a noção de que a principal responsabilidade dos cientistas é produzir novo conhecimento da forma mais objetiva possível, concentrando seu trabalho cotidiano nessa tarefa central.
Do meu ponto de vista pessoal, porém, a situação é mais complexa. As expectativas sociais e políticas em relação à transferência de conhecimento e ao engajamento público são claras, e os pesquisadores em início de carreira precisam lidar com essas demandas de alguma forma.
Em particular, cientistas como os do nosso estudo, que já apresentam um alto nível de motivação intrínseca para a comunicação, enfrentam conflitos de papéis acentuados quando não percebem apoio ou reconhecimento para suas atividades de comunicação, ou, no pior dos casos, encontram resistência em seus ambientes profissionais.
Qual o risco em relação a isso?
Um risco potencial nessas situações é que esses cientistas continuem a se comunicar, mas com menor atenção aos padrões profissionais clássicos da academia. Para o público, muitas vezes não é evidente se um jovem cientista está se pronunciando como profissional ou como indivíduo privado ao tratar de temas científicos em espaços públicos.
Violações de normas nesses contextos podem, ao longo do tempo, comprometer a confiança na ciência de forma mais ampla.
Por essa razão, considero sensato dar maior ênfase à conscientização dos pesquisadores em início de carreira sobre como são percebidos por diferentes públicos e grupos de interesse na comunicação pública.
Além disso, em vez de tentar estimular um número cada vez maior de cientistas a se envolver em formas muitas vezes superficiais de comunicação científica, seria mais eficaz investir em apoiar e integrar institucionalmente aqueles que já se identificam fortemente como comunicadores.
Uma das principais conclusões de nossos estudos é que o sistema não precisa necessariamente de mais produção em comunicação científica.
O que ele precisa, na verdade, é de uma integração mais profunda e significativa da comunicação científica nas trajetórias de carreira, nas estruturas profissionais e nas instituições científicas existentes.
Em última análise, essa abordagem beneficiaria as organizações de pesquisa, os cientistas envolvidos e, muito provavelmente, o público em geral.
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