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“Dupla negligência”: por que tratar doenças tropicais exige cuidar também da saúde mental
Especialista britânico em saúde mental global defende que o combate às doenças tropicais negligenciadas precisa incluir estigma, exclusão social e sofrimento psíquico
“Se quisermos que os programas de combate às doenças tropicais negligenciadas tenham sucesso, precisamos levar o estigma e a saúde mental a sério como parte do atendimento às necessidades globais”, diz o psiquiatra Julian Eaton, professor de Saúde Mental Global na Liverpool School of Tropical Medicine, no Reino Unido | Imagem: Arquivo pessoal
“Se quisermos que os programas de combate às doenças tropicais negligenciadas tenham sucesso, precisamos levar o estigma e a saúde mental a sério como parte do atendimento às necessidades globais — e não como uma questão separada.”
A declaração condensa uma mudança de paradigma que o psiquiatra Julian Eaton tem defendido ao longo de décadas de atuação em contextos de saúde em países de baixa renda.
Britânico de origem, nascido na República Democrática do Congo (então Zaire) e com extensa trajetória em países africanos, Eaton é professor sênior de Saúde Mental Global na Liverpool School of Tropical Medicine (LSTM), no Reino Unido, uma das principais instituições mundiais dedicadas ao estudo e ao combate de doenças que afetam populações em regiões tropicais e subtropicais.
Médico de formação, Eaton tem se dedicado à interface entre saúde mental e doenças tropicais negligenciadas (DTN), um conjunto de condições infecciosas e parasitárias que afetam mais de um bilhão de pessoas ao redor do mundo, sobretudo nos países mais pobres.
Sua perspectiva une clínica, pesquisa e advocacy: é uma das vozes mais citadas no campo quando o assunto é incorporar o cuidado psíquico a programas historicamente centrados apenas na dimensão biomédica.
Em 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou pela primeira vez um pacote prático e baseado em evidências para enfrentar os impactos das DTN na saúde mental e no estigma associado a essas doenças.
O documento responde ao acúmulo de evidências de que pessoas que vivem com doenças tropicais negligenciadas, tais como a leishmaniose, apresentam taxas significativamente mais altas de depressão, ansiedade, sofrimento psíquico e comportamentos suicidas do que a população geral — impulsionadas não apenas pelos efeitos diretos das doenças, mas pela discriminação e exclusão social.
Em entrevista ao Science Arena, Eaton discute os mecanismos estruturais dessa dupla negligência, as estratégias mais eficazes para reduzir o estigma e promover inclusão, e o papel central da pobreza (e do combate a ela) em qualquer resposta que queira ser realmente transformadora.
Science Arena – A relação entre doenças tropicais negligenciadas e saúde mental foi historicamente pouco considerada. Quais fatores estruturais ajudam a explicar essa negligência ao longo do tempo?
Julian Eaton – Para quem trabalha com pessoas com doenças tropicais negligenciadas, como hanseníase, filariose linfática e úlcera de Buruli, sempre foi evidente o sofrimento causado pelas experiências associadas a essas doenças.
Muitas vezes, esses indivíduos enfrentam exclusão social, algo historicamente ligado, por exemplo, à hanseníase (relatada desde a Bíblia). Ainda assim, o cuidado oferecido, por muito tempo, permaneceu centrado no modelo biomédico.
Apenas recentemente a ciência começou a quantificar os impactos psicológicos da exclusão e compreender os mecanismos que ligam o estigma à saúde mental.
Doenças tropicais e saúde mental são áreas historicamente pouco priorizadas. Estamos diante de uma dupla negligência.
Quais são as medidas essenciais para estruturar uma linha de cuidado integrada em saúde mental?
A maior parte dos problemas observados está relacionada à depressão e à ansiedade, consideradas condições comuns de saúde mental. Hoje, reconhece-se que muitos desses casos podem ser manejados fora da atenção especializada.
Em contextos de poucos recursos, utilizam-se estratégias de compartilhamento de tarefas, envolvendo agentes comunitários e membros da própria comunidade.
Casos mais graves, como depressão severa ou ideação suicida, exigem encaminhamento, embora muitos desses locais tenham escassez de especialistas.
As intervenções recomendadas costumam ser psicológicas e básicas, com medicamentos reservados para uma minoria. A OMS, por meio do programa mhGAP (Mental Health Gap Action Programme), busca integrar esse cuidado à atenção primária.
Como estratégias de comunicação podem ajudar a reduzir o estigma e incentivar a busca por cuidado?
Há dois motivos principais para investir em comunicação e engajamento comunitário. O primeiro é incentivar a busca por cuidado. Em muitos países, problemas de saúde mental ainda são vistos como questões espirituais ou falhas pessoais, e não como condições de saúde.
É importante normalizar essas reações diante da exclusão, da dor e dos sintomas crônicos, mostrando que buscar ajuda é adequado. O segundo aspecto é a redução do estigma.
As evidências indicam que apenas distribuir informação não basta. O que realmente transforma atitudes é o contato direto com pessoas afetadas.
Relatos compartilhados por pessoas que tiveram hanseníase, por exemplo, ajudam a humanizar essas experiências e reduzir o preconceito.
Como deve ocorrer a coordenação entre diferentes atores para transformar o cenário da saúde mental nesse contexto?
O primeiro passo é reconhecer que a saúde mental faz parte do campo das doenças tropicais negligenciadas. Nas últimas décadas, houve avanços importantes em pesquisa, prevenção e metas de erradicação, mas a dimensão da saúde mental ainda não foi plenamente incorporada.
Já existem diretrizes da OMS, mas agora é necessário levá-las para o nível dos países, envolvendo ministérios da saúde e sociedade civil, que tem papel central na prestação de serviços e na defesa de direitos.
Quais estratégias intersetoriais são mais eficazes para promover inclusão, qualidade de vida e bem-estar?
As experiências mostram que oferecer apenas serviços de saúde mental não é suficiente para transformar a vida dessas pessoas. A pobreza tem enorme impacto sobre qualidade de vida e estigma. Por isso, iniciativas de geração de renda são fundamentais.
Quando alguém consegue sustentar a família, manter os filhos na escola e viver com dignidade, seu status social muda, mesmo que permaneçam limitações físicas. Combater a pobreza, portanto, é uma das ações mais efetivas para reduzir exclusão e sofrimento.
Como as evidências sobre os impactos em saúde mental devem orientar mudanças em políticas públicas e serviços?
O ponto de partida é a política pública e já tivemos avanços nesse sentido. Países como Libéria, Nigéria e Gana passaram a incorporar a saúde mental em seus planos estratégicos para doenças tropicais negligenciadas.
Isso pode ampliar a capacitação de profissionais da linha de frente para identificar depressão e ansiedade e oferecer um cuidado mais humanizado e integral, considerando não apenas os aspectos físicos, mas também o bem-estar mental.
Doenças tropicais negligenciadas: o que são e quais são as mais comuns
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1. Definição
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As doenças tropicais negligenciadas (DTN) são um grupo de condições infecciosas e parasitárias que afetam principalmente populações que vivem em situação de pobreza em regiões tropicais e subtropicais. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de um bilhão de pessoas são afetadas.
A seguir, veja quais são as principais DTN mencionadas no contexto da saúde mental.
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2. Hanseníase
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Infecção bacteriana crônica causada pelo Mycobacterium leprae. Afeta pele, nervos periféricos e mucosas. Historicamente associada à exclusão social severa, cujo registro remonta à Antiguidade. Curável com poliquimioterapia, mas o estigma pode persistir mesmo após a cura.
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3. Filariose linfática
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Causada por parasitas transmitidos por mosquitos, provoca danos ao sistema linfático que podem resultar em elefantíase — inchaço grave de membros e genitália. As deformidades visíveis intensificam o isolamento social e o impacto psicológico.
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4. Úlcera de Buruli
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Doença cutânea causada pela bactéria Mycobacterium ulcerans. Produz úlceras destrutivas na pele e tecidos moles, frequentemente deixando cicatrizes e deformidades. Predominante em países da África Ocidental e Central.
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5. Leishmaniose
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Causada por protozoários transmitidos por flebotomíneos. Pode afetar pele, mucosas ou órgãos internos. A forma visceral (calazar) é potencialmente fatal se não tratada.
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6. Doença de Chagas
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Transmitida pelo barbeiro (Triatoma), é endêmica na América Latina. Pode causar danos cardíacos e digestivos crônicos. Está incluída nas DTNs priorizadas pela OMS.
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O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).
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