#Entrevistas
“O risco não é a IA, mas delegar à máquina o que é intelectual”, diz pesquisadora
Para Fernanda Scussel, ferramentas de inteligência artificial podem acelerar a pesquisa, mas exigem checagem rigorosa, bons prompts e clareza sobre autoria
“A IA colocou luz sobre problemas fundamentais da comunidade acadêmica que já existiam, mas eram negligenciados”, diz Fernanda Scussel, doutora em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e idealizadora do projeto “Pesquisa na Prática” | Imagem: Arquivo pessoal
“A inteligência artificial [IA] colocou luz sobre problemas fundamentais da comunidade acadêmica que já existiam, mas eram negligenciados”, afirma Fernanda Scussel. Doutora em administração pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Scussel é a idealizadora do projeto “Pesquisa na Prática”, dedicado ao ensino de metodologia científica e ao uso responsável de tecnologias digitais na rotina acadêmica.
Com uma abordagem que recusa tanto o entusiasmo acrítico quanto o pânico tecnológico, ela posiciona a IA não como ameaça ao meio acadêmico, mas como espelho que revela o que sempre esteve lá: lacunas na formação metodológica, questões mal resolvidas de autoria e uma cultura que ainda trata a integridade científica como protocolo burocrático, não como valor.
A chegada de ferramentas de IA ao cotidiano da pesquisa levou órgãos como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) a publicarem portarias inéditas de regulamentação — sinal de que a prática já é realidade e exige diretrizes claras de governança.
Para Scussel, o maior risco não é a tecnologia em si, mas o pesquisador que delega à máquina tarefas que são, na essência, intelectuais.
Em entrevista ao Science Arena, ela explica como selecionar ferramentas com critério, por que a validação cruzada é inegociável e o que separa o uso responsável da IA do simples uso inconsequente.
Science Arena – Quais são os maiores desafios práticos que os pesquisadores enfrentam para usar IA sem comprometer a qualidade do trabalho?
Fernanda Scussel – A IA colocou luz sobre problemas fundamentais da comunidade acadêmica que já existiam, mas eram negligenciados, como as questões de autoria, autenticidade e a fragilidade no ensino de metodologia no Brasil.
O desafio não é apenas usar a ferramenta de forma ética, mas olhar para a cultura acadêmica como um todo.
Até porque existe hoje o que chamamos de “paradoxo da paralisia”: quanto mais ferramentas temos, mais paralisados os pesquisadores se sentem.
O foco precisa sair da tecnologia em si e voltar para o processo de pesquisa. Ou seja, a IA deve ser vista como uma ferramenta para etapas específicas, e não como uma solução mágica para escrever teses ou ler artigos por conta própria.
Muitos pesquisadores se sentem perdidos com a quantidade de ferramentas. Qual o seu critério para selecionar o que realmente é útil?
O critério principal é a adequação ao uso. O pesquisador deve primeiro definir o que precisa resolver e só então escolher a tecnologia. Outro ponto é o teste: recomendo explorar no máximo três ou quatro ferramentas e focar naquela com que se tem mais afinidade.
O bom resultado vem do proveito que se tira de uma ferramenta específica, pois o uso contínuo permite o aprendizado de máquina e o modelo passa a compreender melhor as necessidades do usuário.
Quais estratégias de validação são inegociáveis para garantir que uma ferramenta seja confiável?
Precisamos entender que as plataformas de IA são empresas e têm um “elemento bajulador” para promover engajamento, ou seja, elas querem te agradar.
Por isso, o pesquisador deve ter o seu próprio critério de validação. Uma estratégia crucial é o “cross check” (validação cruzada). Isso significa verificar se o que a IA afirma condiz com o que o autor do artigo realmente escreveu.
Outro erro fatal é delegar tarefas essenciais, como a leitura, à máquina. Use a IA para acelerar o processo, como ler um texto complexo, mas nunca deixe de ser o responsável intelectual pelo conteúdo.
Ter interesse genuíno pela sua pesquisa fará com que você não queira cortar caminhos que são fundamentais.
Como você se mantém atualizada e consegue diferenciar o que é inovação real do que é apenas “hype”?
É preciso muito cuidado com o hype, que gera um ambiente ansiogênico. Se você já usa uma ferramenta que entrega resultados seguros e satisfatórios, não precisa migrar para a “novidade da semana” apenas por pressão.
Manter o foco em uma ferramenta ajuda no aprendizado de máquina que eu mencionei anteriormente, e ainda reduz a ansiedade de estar sempre atrás da próxima técnica.
Hoje eu testo muitas opções por ser professora, mas, para o pesquisador, o ideal é silenciar o ruído e se concentrar no que funciona para o seu processo.
Quais são os erros mais comuns no uso das ferramentas?
O primeiro é não saber fazer um prompt eficaz. É preciso saber “mandar” na IA, isto é, dar a ela contextos e limites.
O segundo é a ausência de interação: muitos copiam e colam a primeira resposta, o que gera textos genéricos e risco de plágio.
Por fim, há a falta de compreensão técnica, como ignorar a “janela de contexto”, o que leva a alucinações da máquina quando se insere informações demais.
Como estruturar um prompt eficaz para pesquisa científica
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1. Defina o contexto
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Informe à ferramenta sua área de pesquisa, nível de formação e objetivo específico da tarefa.
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2. Estabeleça limites
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Indique o que você quer (e o que não quer) que a IA produza.
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3. Forneça exemplos
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Mostre o tipo de saída esperada, especialmente em tarefas de escrita ou análise.
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4. Controle a janela de contexto
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Evite inserir textos muito longos em uma única consulta para reduzir o risco de alucinações.
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5. Faça sempre checagem cruzada
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Verifique se as referências citadas pela IA condizem com o que os autores realmente escreveram.
Quais são as maiores oportunidades que a IA oferece para democratizar a ciência brasileira hoje?
A IA praticamente eliminou a barreira do inglês, por exemplo, e esse, para mim, foi um grande ganho. Pesquisadores que não dominam o idioma agora podem compreender textos complexos e participar de aulas em pé de igualdade.
A tecnologia também facilita a inserção internacional da ciência brasileira, ajudando a adaptar a linguagem e tornar os artigos mais persuasivos para periódicos de alto impacto, o que acelera a publicação em veículos de prestígio.
Para você, quais são os próximos passos dessa tecnologia?
Precisamos agora trabalhar na formação dos professores, para que eles estejam mais preparados e possam usar também nas suas práticas, ensinando o aluno a fazer corretamente.
É preciso falar sobre tudo isso com responsabilidades e sem tabu, pois é um tema que veio para ficar e, portanto, merece atenção e seriedade.
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