#Entrevistas
Molécula inspirada em veneno de aranha elimina células de leucemia em laboratório
Composto desenvolvido por pesquisadores do Butantan e do Einstein induziu a morte programada até de células leucêmicas resistentes à quimioterapia
Thomaz Rocha e Silva, professor de farmacologia e bioquímica do Einstein, foi responsável pelos testes de ação antitumoral | Imagem: Einstein
Pesquisadores do Instituto Butantan e do Einstein Hospital Israelita identificaram, em testes in vitro, que uma molécula poliamina, extraída do veneno da aranha caranguejeira, que habita o litoral do estado de São Paulo, tem o potencial de causar a morte programada de células de leucemia (apoptose).
A poliamina é um tipo de toxina abundante nos venenos. Nesta parceria, a molécula foi sintetizada em laboratório no Butantan, enquanto a purificação (remoção de eventuais contaminantes) foi feita no Einstein.
A síntese da substância, que consiste na união de duas moléculas já conhecidas, permitiu a obtenção da molécula sem precisar extrair o veneno do animal, tornando o processo mais rápido.
O diferencial da metodologia é que, ao morrer por apoptose e não por necrose, a célula de leucemia se autodestrói de forma controlada, sem causar uma reação inflamatória, diferentemente do mecanismo de grande parte dos medicamentos quimioterápicos hoje disponíveis.
Há outras estratégias capazes de induzir apoptose em células de câncer, como os anticorpos monoclonais, mas estas são tecnologias que exigem grande investimento e demandam tempo para produzir.
Em entrevista ao Science Arena, Thomaz Rocha e Silva, professor de farmacologia e bioquímica do Einstein, responsável pelos testes de ação antitumoral, destaca que o composto conseguiu eliminar, inclusive, células leucêmicas resistentes a quimioterápicos.
A pesquisa, de cerca de 20 anos, além de resultar em uma patente, abre caminho para uma nova terapia imunológica ativa (terapia gênica), que, nas palavras do pesquisador, não pode ser confundida com vacina terapêutica.
Science Arena – O que ocorreu nesse período de duas décadas, que precedeu o início da pesquisa pré-clínica?
Thomaz Rocha e Silva – Neste período, concluí minha formação e iniciei a docência, o que comprometeu o tempo disponível para seguimento dos trabalhos. Ainda houve a falta de apoio financeiro, que até aqui foi exclusivamente institucional, o que também gerou atrasos importantes.
A valorização da biodiversidade é retomada de tempos em tempos, quando encontramos limites em novas tecnologias. Devemos realizar investimentos maciços para entender as enormes possibilidades que a biodiversidade pode nos oferecer.

O que há de inovador no processo de extração do veneno da aranha caranguejeira Vitalius wacketi e quais foram as atribuições do Butantan e do Einstein no desenvolvimento e obtenção da patente?
A inovação é uma molécula pequena que provoca morte celular por um processo não inflamatório. Ainda, a molécula é pequena e conseguimos sintetizá-la. No Butantan, foram realizadas as primeiras purificações e a síntese da molécula. No Einstein, foram realizadas as purificações do sintético e os testes biológicos.
Qual foi a premissa que os levou a estudar o potencial dessa molécula no controle da leucemia por apoptose? Houve testes para quais tipos de leucemias?
A premissa foi que um veneno deve ser tóxico e, mediante um painel de venenos de aranhas, a da Vitalius wacketi foi a mais promissora. Quando chegamos na toxina purificada, a morte por apoptose foi uma excelente surpresa. Foi testada em células de leucemia mieloide crônica (LMC) e de leucemia linfoide aguda (LLA).
Nos próximos passos de desenvolvimento, haverá testes em modelos animais ou já se transpõe para a fase clínica, em humanos?
Houve avanço nos testes in vitro, principalmente relacionado à segurança da molécula, e testar em animais é uma legítima exigência da Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] para segurança de testes em seres humanos.
Nesse sentido, a molécula continua sendo uma promessa experimental ou já se tornou um candidato mais próximo de chegar aos pacientes?
Ainda é uma promessa experimental, mas estamos fechando um acordo com uma startup. O objetivo é estabelecer uma parceria com uma empresa com capacidade de produzir em maior escala e financiar os testes em animais – e, futuramente, em humanos, caso se prove segura e eficaz.
“Devemos realizar investimentos maciços para entender as enormes possibilidades que a biodiversidade pode nos oferecer.”
Mas a molécula elimina células cancerosas sem causar toxicidade às células saudáveis? Nesse sentido, ela demonstrou atividade também contra outros tipos de câncer ou revelou novas possibilidades terapêuticas?
Sim. Testamos em células saudáveis e não houve toxicidade. Ela foi testada também em culturas de células de cânceres sólidos, mas sua atividade foi menor.
Quais são atualmente os principais obstáculos para iniciar testes clínicos em humanos? Há alguma previsão para essa e outras etapas até a produção da molécula?
O principal é conseguirmos orçamento para os testes pré-clínicos, o que gira em torno de R$ 1 milhão. Já a produção da molécula em escala depende de parcerias para transformar a descoberta em um potencial medicamento, para o que aguardamos a formalização do acordo com a startup para iniciarmos esta etapa.
Caso o fármaco cumpra todas as etapas de pesquisa pré-clínica e clínica, ele será usado em terapia gênica como tratamento único ou a abordagem será multimodal, incluindo, por exemplo, transplante de medula óssea e quimioterapia?
A perspectiva é que seja inicialmente adjunto às quimioterapias tradicionais, uma vez que seria antiético testar em pacientes sem o tratamento padrão. Caso haja sucesso, o acúmulo de evidências e a experiência clínica podem conduzir esta molécula a novas indicações.
Além de vacina preventivas e profiláticas, temos vacinas terapêuticas para casos de câncer de bexiga e próstata, com estudos em fase avançada, por exemplo, para melanoma e câncer de pâncreas. O que tem proporcionado esse cenário promissor?
O que é comumente chamado de vacina é, na verdade, terapia imunológica ativa ou terapia gênica. Este cenário, com certeza, se deve ao avanço de tecnologias, permitindo acessibilidade de métodos experimentais bem-sucedidos para a escala de assistência, aliado ao fato de haver uma maior compreensão da natureza molecular particular de cada câncer.
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