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Artigos assinados por mulheres levam mais tempo para serem aprovados na revisão por pares
Pesquisa com mais de 7 milhões de publicações em biomedicina e ciências da vida quantifica diferença de até 14,6% no tempo de revisão entre autoras e autores
Artigos submetidos por mulheres ficam em revisão até 14,6% mais tempo do que os de homens, revela estudo | Imagem: Pexels
Manuscritos submetidos por mulheres nas áreas de biomedicina e ciências da vida permanecem na revisão por pares por mais tempo do que aqueles enviados por autores homens. A diferença média varia de 7,4% a 14,6% — e configura mais uma das barreiras estruturais enfrentadas por pesquisadoras no ambiente acadêmico.
A constatação é de um estudo publicado em janeiro de 2026 no periódico PLOS Biology, que analisou dados de mais de 7 milhões de artigos.
A desigualdade em números
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Diferença no tempo de revisão
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Artigos assinados por mulheres levam entre 7,4% e 14,6% mais tempo para ser aprovados na revisão por pares do que os de autoria masculina, em biomedicina e ciências da vida.
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Primeira autoria: dias em revisão
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Quando a primeira autora é mulher, o artigo fica em média 101 dias sob revisão — contra 94 dias quando o primeiro autor é homem.
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Autoria exclusiva: dias em revisão
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Artigos assinados exclusivamente por mulheres ficam em revisão por 99 dias em média, ante 90 dias para os de autoria integralmente masculina.
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Escala da pesquisa
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O estudo partiu de 36 milhões de artigos indexados no PubMed. Após excluir publicações com dados incompletos, a análise se concentrou em 7,75 milhões de artigos distribuídos em 8.860 periódicos de biomedicina e ciências da vida.
Como o estudo foi conduzido
A pesquisa partiu de um banco com mais de 36 milhões de artigos indexados no PubMed, repositório mantido pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos, que reúne publicações em ciências da vida e biomedicina.
Cerca de 7 milhões de artigos foram efetivamente analisados após a exclusão de publicações com dados incompletos, como ausência de datas de submissão ou aceite.
Para medir o tempo de revisão, os autores consideraram o intervalo entre a submissão do artigo e sua aprovação final. Nesse período, os manuscritos passam por avaliação editorial, revisão externa por pares, pedidos de revisão e resposta dos autores, ciclo que pode se repetir diversas vezes.
A escolha pelas áreas de ciências da vida e biomedicina também foi estratégica: cerca de 36% de todos os artigos científicos publicados anualmente no mundo pertencem a esses campos, o que torna os resultados especialmente representativos.
O estudo foi coordenado por David Alvarez-Ponce, professor associado do Departamento de Biologia da Universidade de Nevada, Reno (EUA), com formação em biologia evolutiva e ciências da computação.
O interesse pelo tema surgiu após contato com pesquisas semelhantes no campo da economia: um desses estudos, publicado em 2023, analisou mais de 26 mil artigos em 32 periódicos de economia e finanças e identificou que trabalhos de autoria feminina passavam por mais rodadas de revisão.
Os números da desigualdade
Os dados revelam diferenças consistentes a depender da posição de autoria. Artigos em que mulheres figuram como primeiras autoras ficaram em revisão por cerca de 101 dias, contra 94 dias quando o primeiro autor era homem.
Já artigos com autoria exclusivamente feminina permaneceram cerca de 99 dias em revisão, ante 90 dias para artigos de autoria exclusivamente masculina.
“Cientistas estão se tornando cada vez mais conscientes de diferenças de gênero. Eles estão começando a pesquisar sobre o assunto. Esse tema está revelando algumas diferenças, como que em algumas situações as mulheres podem ser discriminadas, em outras talvez não, ou não tanto” escreveram os autores.
O estudo não investigou as causas do fenômeno. Isso exigiria uma análise detalhada de cada etapa do processo editorial. Uma hipótese levantada pelos autores é que pesquisadoras acumulam mais responsabilidades domésticas e educativas, o que poderia reduzir sua disponibilidade para responder rapidamente a pedidos de revisores e editores.
Pesquisadoras brasileiras confirmam o cenário
Marcia Barbosa, reitora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), afirma que os resultados do estudo não a surpreendem.
Ela mesma já vivenciou demoras excessivas na revisão de seus artigos.
A física, que acompanha de perto o debate sobre equidade de gênero na ciência desde os primeiros anos de carreira, acredita que soluções pontuais — como revisão cega ou estabelecimento de prazos máximos para avaliação — têm valor, mas não são suficientes.
“A mudança macroscópica passa por ensinar as questões de gênero em escolas e universidades de uma maneira organizada”, afirma Marcia Barbosa.
Letícia de Oliveira, neurocientista da Universidade Federal Fluminense (UFF) e presidente da Comissão de Equidade, Diversidade e Inclusão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ), também relata ter sentido lentidão na revisão de artigos que submeteu.
Para Oliveira, o problema é sintoma de dois obstáculos maiores: a dificuldade de mulheres alcançarem posições de prestígio na hierarquia científica e sua sub-representação em determinadas áreas, especialmente em tecnologia.
Ela cita um estudo publicado em 2018 que avaliou periódicos de alta qualidade listados no Nature Index: quanto maior o fator de impacto de uma revista, menor a chance de mulheres figurarem em posições de destaque na autoria.
“Nós temos dificuldade de publicar em posições chaves, não é só o tempo requerido para a publicação. O problema também é conseguir publicações em revistas de impacto”, diz Oliveira.
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