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Ciência de fronteira exige risco, mas Brasil ainda pune o fracasso

Especialistas apontam que projetos realmente inovadores precisam de ambientes mais seguros para errar, recombinar conhecimentos e desafiar paradigmas

Fotografia aérea ao entardecer do edifício do Sirius, acelerador de partículas do CNPEM, em Campinas (SP). A estrutura tem formato circular, com cobertura metálica em tons de prata e pátio central aberto. Ao redor, campus com outros prédios institucionais, áreas verdes e estacionamento. Ao fundo, a cidade e o sol no horizonte sob céu alaranjado. Vista aérea do Sirius, acelerador de partículas operado pelo Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) em Campinas (SP) — um dos primeiros aceleradores de quarta geração em operação no mundo | Imagem: Laboratório Nacional de Luz Síncrotron

A fronteira do conhecimento é um alvo móvel. Aquilo que hoje não sabemos pode se tornar conhecido amanhã — sinal de que a ciência avançou. Mas, para isso acontecer, é necessário que o sistema de pesquisa aceite o risco e a falha, inerentes a qualquer processo que tenta algo genuinamente novo.

Uma das características centrais da ciência de fronteira é a recombinação, afirma Adriana Bin, doutora em política científica e tecnológica e pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “Eu me refiro à combinação ou recombinação de coisas que já existiam no passado e que ainda não foram articuladas: diferentes teorias, diferentes metodologias, diferentes abordagens.”

Na ciência, geralmente quem delimita esse território é a própria comunidade científica. “Quem organiza e quem define o que é de fronteira é a própria comunidade, são os pares”, afirma Sérgio Salles-Filho, também pesquisador da Unicamp e estudioso da política científica. 

O viés conservador da avaliação por pares

Esse mesmo grupo que delimita a fronteira é também quem avalia as propostas de pesquisa, o que pode ser um problema. “A questão não é bem aversão ao risco, mas mais um viés de conservadorismo que os pares tendem a adotar para propostas mais inovadoras”, diz Bin. 

Avaliadores podem rejeitar propostas que desafiam paradigmas estabelecidos, especialmente quando essas propostas cruzam fronteiras disciplinares e escapam aos critérios de avaliação tradicionais e consagrados.

O resultado é um sistema cuja estrutura muitas vezes pune o risco. As métricas de avaliação da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), principal órgão de avaliação da pós-graduação no Brasil, focam em resultados rápidos e impacto mensurável. Projetos com potencial inovador, mas com mais chances de insucesso, nem sempre encontram ambiente favorável à aprovação.

“A tolerância ao fracasso tem que fazer parte da rotina da agência ao resolver financiar uma pesquisa dessa natureza. Pode dar certo, mas pode ser que não dê certo. Hoje a gente não tem muito esse parâmetro nas agências de fomento brasileiras”, explica Bin.

O sistema, porém, não é monolítico. Há frestas. Uma delas tem 518 metros de circunferência e fica em Campinas. O Sirius, um dos primeiros aceleradores de partículas de quarta geração em operação no mundo e o mais brilhante na sua faixa de energia, é operado pelo Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, e representa um caso raro de infraestrutura científica de fronteira construída no Brasil. 

Segundo Antônio José Roque da Silva, diretor-geral do CNPEM, o projeto tornou-se possível porque estava em sua concepção a disposição para fazer o que ninguém havia feito antes no país. Isso exigiu desenvolver e inventar soluções ao longo do caminho, a custo de erros. O ponto central, para ele, é como o ambiente lida com esses percalços.

“Você tem que ter um ambiente para que as pessoas queiram atingir a fronteira e se sintam seguras de que não serão penalizadas pelos erros”, diz José Roque, do CNPEM.

As fronteiras específicas da saúde no Brasil

Na área da saúde, o desafio ganha uma camada adicional. “A saúde no Brasil tem fronteiras de conhecimento que são diferentes da saúde no resto do mundo”, observa Fernanda De Negri, secretária de Ciência, Tecnologia e Inovação e do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (SECTICS) do Ministério da Saúde. Para ela, o país precisa responder tanto a desafios globais quanto a problemas específicos da sua população.

Em fase de estruturação na SECTICS, o programa de inovação radical em fármacos, denominação adotada pela própria secretária, prevê aportar recursos do Ministério da Saúde para financiar infraestrutura laboratorial em instituições de pesquisa voltadas ao desenvolvimento de novos medicamentos. 

O CNPEM será o primeiro hub do programa, com investimento de R$ 67,4 milhões em infraestrutura e contratação de pessoal especializado. “Qual é a ideia do programa de inovação radical? É estimular justamente o desenvolvimento de novas moléculas que não existem. Isso é pesquisa de fronteira. É criar um medicamento completamente novo”, explica De Negri.

Outra iniciativa do ministério é o Programa Nacional de Genômica e Saúde Pública de Precisão – Genomas Brasil, criado em 2020 com a meta de sequenciar o genoma completo de 100 mil brasileiros até o final de 2026. Até fevereiro de 2025, 34.551 genomas já haviam sido completamente sequenciados. 

Um dos estudos gerados pelo programa identificou, na população brasileira, 8 milhões de variantes genéticas nunca relatadas em nenhum outro grupo populacional no mundo, resultado publicado na revista Science e argumento concreto de por que a fronteira do conhecimento local pode gerar impacto global.

“A saúde no Brasil tem fronteiras de conhecimento que são diferentes da saúde no resto do mundo”, explica De Negri, do Ministério da Saúde.

IA e aceleração

A ciência de fronteira é, por definição, um alvo que se move. E, com a inteligência artificial (IA) acelerando a produção e a síntese do conhecimento, esse alvo se moverá cada vez mais rápido. 

“A IA na ciência é uma mudança muito importante do ponto de vista da competição, mas também de se identificar o que é fronteira”, afirma Salles-Filho. “O alvo móvel vai se mover cada vez mais rapidamente.”

O sistema científico brasileiro — suas agências, suas métricas, sua cultura institucional — foi desenhado para um ritmo diferente. Enquanto a fronteira avança em velocidade crescente, a ciência brasileira ainda opera com incentivos voltados ao que geralmente já é conhecido.

Quatro entraves à ciência de fronteira no Brasil

1. Conservadorismo da avaliação por pares

Pesquisadores que avaliam propostas tendem a rejeitar abordagens que cruzam fronteiras disciplinares ou desafiam paradigmas consolidados, favorecendo o que já é aceito pelo campo.

2. Métricas voltadas a resultados rápidos

Os critérios da CAPES privilegiam publicações e impacto mensurável em curto prazo, desfavorecendo projetos com maior potencial inovador e maior risco de insucesso.

3. Baixa tolerância institucional ao fracasso

As agências de fomento brasileiras não incorporam sistematicamente a possibilidade de fracasso como parte legítima do financiamento de pesquisa de alto risco.

4. Escassez de infraestrutura de ponta

Casos como o Sirius são raros no país. A ausência de equipamentos e ambientes de pesquisa adequados limita a capacidade de competir na fronteira do conhecimento global.

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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