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Vacina da dengue do Butantan: por que testes rigorosos não preveem todos os efeitos raros
Após suspensão preventiva pelo Ministério da Saúde, pesquisadora do Einstein explica como funcionam ensaios clínicos randomizados e a vigilância pós-aprovação
Coletiva de imprensa do Ministério da Saúde sobre a suspensão preventiva da vacina contra dengue do Instituto Butantan, realizada em 8 de junho de 2026 | Foto: João Risi / Ministério da Saúde
O Ministério da Saúde suspendeu, em 8 de junho de 2026, a aplicação da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, em São Paulo. A decisão é preventiva: o sistema de monitoramento identificou 42 casos de reações raras e inesperadas entre as 501 mil doses aplicadas desde janeiro em profissionais de saúde da atenção primária, que atuam no Sistema Único de Saúde (SUS), e em pessoas de 15 a 29 anos dos municípios de Nova Lima (MG), Maranguape (CE) e Botucatu (SP), além da região de Araguaína (TO). Deste total, foram registrados dois óbitos que estão sendo investigados. Por enquanto, não há como afirmar que a vacina causou essas mortes.
A Butantan-DV é a primeira vacina do mundo contra a dengue aplicada em dose única e o primeiro imunizante inteiramente desenvolvido no Brasil. O Instituto Butantan levou cerca de 20 anos para criá-la, a partir de uma tecnologia licenciada dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH).
Antes de ser aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em dezembro de 2025, o imunizante passou por estudos clínicos com mais de 11 mil voluntários acompanhados por até cinco anos. Os resultados mostraram eficácia de 65% contra a doença e de 80,5% contra os casos mais graves, segundo informações do Instituto Butantan
O que foi encontrado
De janeiro a 30 de maio de 2026, o sistema de farmacovigilância (o conjunto de mecanismos que monitora vacinas e medicamentos depois que chegam ao mercado) registrou 42 reações que não haviam aparecido nos estudos que levaram à aprovação da vacina.
Os episódios incluíram sintomas como dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos. Três foram classificados como graves, e dois resultaram em morte.
Os casos fatais envolvem uma mulher de 48 anos que desenvolveu comprometimento neurológico grave 19 dias após a vacinação, e um homem de 58 anos que evoluiu rapidamente para um quadro severo da doença cinco dias depois de receber a dose.
Em ambos os casos, a investigação ainda precisa verificar se há outras causas que possam ter contribuído para os óbitos — como doenças preexistentes ou outros fatores de risco.
Os 42 casos representam 0,008% do total de vacinados — uma proporção muito pequena, mas suficiente para acionar os protocolos de segurança. A decisão de suspender foi tomada em conjunto pelo Ministério da Saúde e pela Anvisa, com respaldo de dois comitês técnicos de especialistas.
“Essa descontinuidade tem um objetivo”, alertou Alexandre Padilha, ministro da Saúde, em pronunciamento nesta segunda-feira, 08/06. “Primeiro, trata-se de uma ação de precaução que deve sempre orientar quem respeita a vida e quem respeita a ciência”, disse Padilha.
“Segundo, ela permite que o Ministério da Saúde, a Anvisa e o Instituto Butantan aprofundem a investigação dos casos, em especial dos óbitos registrados, para os quais ainda não há informações suficientes que permitam estabelecer uma relação de causalidade com a vacina.”
Quem já tomou a vacina está protegido
Para quem já foi vacinado, a proteção está garantida, esclareceram as autoridades. “Quem já tomou a vacina pode ficar absolutamente descansado. Todos aqueles que já receberam a vacina podem contar com a proteção que ela promete, de 65% de não pegar a doença cinco anos após a aplicação e 80% para não desenvolver dengue grave”, disse Esper Kallás, médico infectologista e diretor do Instituto Butantan, em entrevista ao canal GloboNews.
Quem recebeu a vacina há menos de 21 dias, no entanto, deve ficar atento a sintomas como febre, dor abdominal intensa, vômitos persistentes, sangramentos, tontura ou sonolência excessiva.
Se aparecer qualquer um desses sinais, a orientação é procurar atendimento médico imediatamente. Após 21 dias, não há mais componente ativo da vacina no organismo.
A suspensão não afeta a vacina Qdenga, produzida no Japão e disponível gratuitamente no SUS desde 2024 para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos. Até agora, cerca de 8 milhões de doses foram aplicadas no país.
O cenário epidemiológico atual é positivo: em 2026, até o fim de maio, o Brasil registrou queda de 94% no número de casos de dengue e de 97% nos óbitos em relação ao mesmo período de 2024, segundo dados do Ministério da Saúde.
Por que testes rigorosos não garantem que tudo seja previsto
A situação da vacina do Butantan ilustra um limite real da pesquisa clínica, — e não uma falha dela. Em entrevista ao Science Arena publicada em abril de 2026, a cardiologista e pesquisadora clínica Karla Espírito Santo, do Einstein Hospital Israelita, explicou como esse processo funciona e por que ele não pode ser abreviado.
Antes de qualquer vacina ou medicamento chegar ao mercado, ele precisa passar por quatro fases de testes. Na primeira, o produto é testado em voluntários saudáveis para verificar se é seguro.
Na segunda, avalia-se a dose certa e os primeiros sinais de que funciona. Na terceira — a mais extensa —, o teste é feito com milhares de pessoas para confirmar tanto a eficácia quanto a segurança.
É só depois de aprovado que começa a quarta fase: o monitoramento contínuo de quem já está usando o produto na vida real.
“Sem comparação adequada entre grupos, não há como provar a eficácia de um novo medicamento.” — Karla Espírito Santo, cardiologista e pesquisadora clínica do Einstein Hospital Israelita
O problema é que estudos clínicos, por mais rigorosos que sejam, testam um número limitado de pessoas. Efeitos adversos muito raros — que acontecem em 1 a cada 10.000 ou 100.000 casos — simplesmente não aparecem nessa escala.
Só ficam visíveis quando a vacina é usada por centenas de milhares de pessoas ao mesmo tempo. É exatamente por isso que a fase 4 existe.
Karla Espírito Santo explica que, para que os resultados de um estudo sejam confiáveis, é preciso comparar grupos equivalentes. A randomização — isto é, o sorteio de quem recebe o tratamento e quem fica no grupo de controle — existe justamente para evitar que diferenças entre os participantes contaminem os resultados.
Sem esse mecanismo, é impossível saber se um efeito observado foi causado pelo medicamento ou por alguma característica prévia do grupo estudado.
Na hierarquia das evidências científicas, os ensaios clínicos randomizados ocupam o topo entre os estudos individuais. Acima deles estão apenas as revisões sistemáticas e as meta-análises, que combinam os resultados de vários estudos para chegar a conclusões mais robustas.
Na base da pirâmide ficam os relatos de casos isolados — úteis para levantar hipóteses, mas insuficientes para provar que um tratamento funciona.
Karla também abordou os riscos de pular etapas sob pressão. O Brasil tem casos emblemáticos nesse sentido: a fosfoetanolamina sintética, distribuída por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) sem registro na Anvisa, gerou milhares de ações judiciais de pacientes com câncer, mesmo sem evidências de segurança ou eficácia. O Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional a lei que autorizava seu uso.
Mais recentemente, a polilaminina, proteína desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para tratar lesões na medula espinhal, também foi alvo de pedidos judiciais antes de concluir a fase 1 dos testes, voltada exclusivamente à avaliação de segurança.
“Mesmo em contextos de urgência, como ocorreu com as vacinas contra a Covid-19, os estudos necessários foram realizados antes da aprovação”, afirmou Karla. “Seguir esse processo é uma forma de proteger a população.” No caso da vacina do Butantan, é exatamente esse processo que está em curso: o sistema funcionou ao identificar o sinal, e agora a ciência precisa de tempo para entender o que ele significa.
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