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05.06.2026 Ética

Revistas predatórias exploram pressão por publicação entre pesquisadores brasileiros

Estudo com mais de mil pesquisadores mostra como periódicos suspeitos se aproveitam da lógica do “publique ou pereça” para atrair submissões

Silhueta de um pesquisador ao centro, entre duas capas de revista estilizadas: à esquerda, em tons frios com símbolo de check sugerindo periódico legítimo; à direita, em cores quentes com ícones de alerta e cifrão, representando revista predatória, com poucos envelopes de e-mail flutuando em direção ao lado predatório. Pesquisadores submetidos à lógica do 'publique ou pereça' são os mais vulneráveis às abordagens de periódicos predatórios, que prometem publicação rápida e indexação no Qualis | Imagem gerada por IA

“Convite para publicar sua valiosa pesquisa em nossa revista internacional de alto impacto.” “Oportunidade de publicação rápida com aceitação garantida.” Mensagens como essas são recorrentes nas caixas de entrada dos e-mails de pesquisadores abordados por revistas predatórias, isto é, periódicos científicos que exploram a pressão por publicação para capturar manuscritos sem submetê-los à devida revisão por pares.

O conceito foi cunhado em 2010 pelo bibliotecário norte-americano Jeffrey Beall para descrever periódicos que priorizam o lucro sobre a integridade acadêmica. Na prática, essas publicações cobram taxas de processamento sem realizar revisão por pares, disseminam informações falsas sobre fator de impacto e indexação, e usam campanhas de e-mail agressivas para atrair submissões. 

As consequências vão além do currículo de um pesquisador: estudos publicados em revistas predatórias podem contaminar a literatura científica, como exemplifica a circulação de pesquisas frágeis sobre o uso da cloroquina no tratamento da covid-19.

A lógica que alimenta esse mercado é o “publish or perish” (publique ou pereça): sem artigos publicados em periódicos acadêmicos, pesquisadores não avançam na carreira. 

As revistas predatórias se aproveitam dessa estrutura ao oferecer acesso aberto, retorno rápido e pontuação no Qualis, roupagem científica que oculta processos editoriais deficientes ou inexistentes.

Um estudo publicado em abril de 2026 na revista Scientometrics buscou mapear esse fenômeno de forma sistemática no Brasil. O trabalho, que seus autores descrevem como o mais abrangente já conduzido sobre o tema no país, avaliou a percepção de pesquisadores brasileiros sobre revistas predatórias a partir de três eixos:

  1. Motivações para publicar nesses periódicos;
  2. Padrão de conhecimento sobre o fenômeno por região;
  3. Relação entre experiência internacional e preparo para identificar publicações suspeitas.

Pressão para publicar e vulnerabilidade

Os autores coletaram 3.067 respostas, das quais 1.065 foram validadas após filtragem que verificou, via plataforma Lattes, do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a existência de ao menos uma publicação formal registrada por respondente.

O principal achado foi o de que os pesquisadores que se sentem pressionados a publicar têm mais experiência com revistas predatórias

Entre os 15,3% dos respondentes que afirmaram já ter tido contato com práticas predatórias, a percepção de pressão para publicar era significativamente maior do que entre os que nunca tiveram esse contato.

O estudo identificou diferenças importantes por estágio de carreira. Ao contrário do que se poderia esperar, pesquisadores seniores com título de doutorado demonstraram maior preocupação com o custo de publicação (15,1%) em comparação a mestrandos (10,3%) e graduandos (10,8%). 

Os autores atribuem isso à estrutura de financiamento da pesquisa brasileira: doutores costumam ocupar cargos de liderança e são responsáveis por gerenciar orçamentos e pagar as taxas de processamento de artigos (APCs), enquanto estudantes focam na redação dos manuscritos.

Já a preocupação com métricas institucionais (Qualis e fator de impacto) foi uniformemente alta em todos os níveis de formação, superando 90% em cada estágio. Esse dado sugere que o sistema nacional de avaliação exerce uma força homogeneizadora sobre as prioridades estratégicas de pesquisadores em todos os momentos da carreira.

Por área de atuação, Engenharia (76% sem suporte institucional) e Linguística, Letras e Artes (78%) concentram a maior proporção de pesquisadores que relatam não receber orientação de sua comunidade acadêmica para identificar e evitar periódicos predatórios.

Tipo de instituição e distribuição regional

Pesquisadores vinculados a instituições federais tendem a ter mais experiência com revistas predatórias do que os associados a instituições estaduais ou privadas. As municipais, embora representem amostra pequena no estudo, apresentaram o maior percentual de experiência com práticas predatórias (36%).

O estudo não encontrou diferença significativa entre as regiões brasileiras, resultado que, segundo os autores, reflete um cenário acadêmico homogêneo moldado por diretrizes nacionais como as da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e do CNPq. 

Outros fatores, como experiência acadêmica, área de atuação e tipo de instituição, parecem ter peso maior do que a localização geográfica.

Experiência internacional e capacidade de seleção

A passagem por instituições estrangeiras faz diferença: pesquisadores com experiência internacional demonstraram mais preparo para selecionar periódicos adequados do que os sem essa vivência. 

O tipo de experiência também importa: pesquisadores em programas de doutorado sanduíche foram os que relataram maior nível de consciência sobre práticas predatórias, atingindo 32% do total com experiência internacional.

Os autores destacam a importância de bolsas de intercâmbio e alertam que, mesmo com experiência internacional, alguns pesquisadores publicaram em revistas predatórias, indicando que a exposição ao exterior por si só não elimina a vulnerabilidade. É preciso que o conhecimento adquirido no exterior seja compartilhado com pares.

A análise textual das respostas abertas de pesquisadores que relataram experiência com práticas predatórias revelou os padrões mais frequentes de abordagem. 

Os termos mais recorrentes foram “convites insistentes” e “e-mails recorrentes” de revistas desconhecidas, seguidos de referências a cobranças de taxas de processamento (APCs) e ao uso de métricas como o Qualis como argumento de captação. 

Expressões como “necessidade de publicar” e “oportunidade de publicação” também apareceram com frequência, mostrando que a pressão institucional é explorada ativamente por esses periódicos.

O que orienta a escolha de onde publicar

A análise de tópicos das respostas abertas sobre o processo de submissão de artigos (amostra de 819 participantes) identificou cinco temas dominantes na tomada de decisão editorial:

Como proteger pesquisadores de revistas predatórias

Os autores argumentam que as revistas predatórias exploram exatamente as lacunas que as instituições deixam abertas: falta de treinamento, ausência de políticas claras e métricas de avaliação que incentivam quantidade em detrimento de qualidade. Como contramedidas, recomendam:

* É permitida a republicação das reportagens e artigos em meios digitais de acordo com a licença Creative Commons CC-BY-NC-ND.
O texto não deve ser editado e a autoria deve ser atribuída, incluindo a fonte (Science Arena).

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