Como conciliar atuação profissional e pesquisa científica?
Fernando Bacal explica como integra assistência médica, pesquisa, docência e gestão e destaca a importância de organizar prioridades, trabalhar em equipe e preservar a saúde mental
Como manter uma trajetória científica ativa sem abandonar a atuação profissional? Para Fernando Bacal, médico cardiologista e vice-presidente de Pesquisa e Inovação do Einstein Hospital Israelita, não existe uma fórmula única.
O caminho, diz ele, depende da organização da rotina, da colaboração com profissionais de diferentes perfis e, sobretudo, das escolhas e prioridades de cada pessoa.
O tema foi discutido em encontro virtual promovido pelo Science Arena.
Bacal relatou como construiu uma carreira que reúne assistência médica, pesquisa, docência, orientação de estudantes e liderança institucional.
Além de sua atuação no Einstein, ele dirige uma unidade clínica de transplante cardíaco no Instituto do Coração (InCor), do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), e mantém atividades assistenciais em consultório.
De acordo com Bacal, a aproximação com a pesquisa ocorreu durante a residência médica, quando o contato com professores, pesquisadores e avanços da cardiologia despertou seu interesse em permanecer vinculado ao ambiente universitário.
A escolha por atuar na área de insuficiência cardíaca e transplantes também favoreceu esse percurso.
Por se tratar de uma especialidade em desenvolvimento e com diversas questões ainda sem resposta, a prática clínica oferecia oportunidades para formular perguntas e desenvolver investigações.
Da observação clínica à pesquisa
Durante a conversa, Bacal ressaltou que a atuação profissional pode ser uma fonte de perguntas científicas.
Para Bacal, o pesquisador deve manter a curiosidade e ter “compromisso com a pergunta, não com a resposta”.
Um exemplo foi uma pesquisa iniciada a partir da observação de que pacientes com insuficiência cardíaca em estágio avançado apresentavam um odor diferente no hálito.
Em colaboração com pesquisadores das áreas médica e química, o grupo identificou uma substância associada a alterações metabólicas provocadas pela doença.
A investigação resultou em publicações científicas, em uma linha de pesquisa sobre biomarcadores e em uma patente internacional envolvendo a substância identificada e um dispositivo para coletar o ar exalado pelos pacientes.
Segundo Bacal, o caso mostra como o contato com pacientes, associado a uma formação científica, pode transformar situações observadas na rotina assistencial em perguntas de pesquisa e possíveis inovações.
A formação científica também influencia a própria prática médica.
Conhecimentos sobre metodologia, ética, evidências e limites de uma investigação ajudam o profissional a avaliar tratamentos de forma crítica e a evitar decisões baseadas apenas em impressões pessoais.
Organização sem tempo protegido
Bacal afirmou que não dispõe de períodos formalmente protegidos para a pesquisa. Para administrar as diferentes responsabilidades, procura dividir a agenda entre assistência, gestão, docência e investigação científica, ainda que imprevistos façam essas atividades se sobreporem.
Em alguns momentos, discussões com estudantes e trabalhos de pesquisa precisam ser realizados no início da manhã, à noite ou nos fins de semana.
Ele reconheceu, porém, que essa rotina exige muitas horas de trabalho e não deve ser encarada como um modelo aplicável a todas as pessoas.
Na avaliação do cardiologista, a ausência de tempo protegido é um dos principais obstáculos para profissionais que tentam manter uma carreira dupla.
Outro desafio é o financiamento: além da disputa por recursos públicos, ele defendeu a ampliação de parcerias com a iniciativa privada, desde que sejam estabelecidos contratos claros sobre propriedade intelectual, responsabilidades e condução dos projetos.
Práticas para conciliar diferentes atividades
Ao longo da conversa, Bacal apresentou práticas que utiliza ou considera importantes para integrar atuação profissional, pesquisa, docência e liderança:
- Dividir a agenda por atividades e prioridades. Bacal procura reservar períodos específicos para assistência, gestão, pesquisa e orientação de estudantes, mantendo flexibilidade para lidar com intercorrências.
- Transformar experiências profissionais em perguntas científicas. A atenção aos problemas encontrados na prática pode revelar lacunas de conhecimento e dar origem a projetos de pesquisa e inovação.
- Trabalhar com pessoas de competências complementares. Uma pesquisa depende de diferentes contribuições, desde o atendimento e a coleta cuidadosa de dados até a análise, a obtenção de financiamento e a redação dos artigos.
- Reconhecer o papel de cada integrante da equipe. Nem todos precisam apresentar o mesmo perfil de produtividade acadêmica. Profissionais com maior vocação assistencial, por exemplo, podem desempenhar funções fundamentais na produção de dados e na condução de estudos.
- Cercar-se de profissionais qualificados e estimular seu crescimento. Para Bacal, uma das funções da liderança é apoiar o desenvolvimento das pessoas, inclusive quando elas passam a ocupar posições de destaque.
- Buscar formação em gestão. Ao assumir responsabilidades institucionais, o cardiologista complementou o aprendizado adquirido na prática com formação em áreas como finanças e governança corporativa.
- Preservar momentos para a família, o lazer e a atividade física. Bacal destacou que saúde mental e risco de esgotamento precisam orientar as decisões de carreira. Uma agenda produtiva também deve conter períodos de descanso e de cuidado pessoal.
- Evitar tratar uma trajetória individual como modelo universal. A recomendação é observar experiências de profissionais mais avançados, aproveitar os aspectos úteis e construir um percurso compatível com as próprias prioridades, condições e limites.
Liderança é combinar talentos
A experiência com equipes de transplante também contribuiu para a formação de Bacal como gestor.
Por envolver profissionais de diferentes especialidades e uma operação contínua, o transplante exige coordenação, planejamento e definição clara de responsabilidades.
Para ele, liderar uma equipe científica é semelhante a organizar um time no qual cada pessoa atua na posição em que pode oferecer sua melhor contribuição.
O trabalho não depende de um único profissional, mas da capacidade de reunir diferentes conhecimentos em torno de um objetivo comum.
Essa perspectiva também orienta sua atuação como professor e mentor.
Bacal contou que procura incentivar estudantes e jovens médicos a realizar estágios e pós-doutorados no exterior, buscar bolsas e assumir novas responsabilidades.
O sucesso dos profissionais que passaram por suas equipes, afirmou, deve ser entendido como um resultado positivo da liderança.
Doutorado pode abrir caminhos fora da universidade
Outro assunto abordado foi a formação de médicos-cientistas. Na avaliação de Bacal, a duração da graduação, da residência e do doutorado pode afastar médicos da pesquisa, sobretudo diante da necessidade de começar a trabalhar e obter renda.
Uma alternativa discutida durante a live é aproximar o doutorado da residência médica, permitindo que o profissional desenvolva um projeto e cumpra parte das atividades acadêmicas enquanto realiza sua especialização.
Bacal ressaltou que o doutorado não precisa conduzir exclusivamente à carreira universitária. A formação em metodologia, estatística e análise crítica pode abrir oportunidades em gestão, docência, indústria farmacêutica, pesquisa clínica e inovação.
O cardiologista reforçou que conciliar tantas frentes exige trabalho e escolhas, mas não deve ocorrer à custa da saúde. Sua trajetória representa uma possibilidade, e não um roteiro obrigatório.
A recomendação é que cada profissional selecione os aprendizados mais adequados à sua realidade e, a partir deles, construa a própria história.
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